segunda-feira, 13 de setembro de 2010

INVERNO

O Inverno levou-me a idade dos amores estéreis
e das falsas partidas, deixando
sobre o campo amadurecido
as sementes duma renúncia precoce
ao direito de escolha.
Não podemos ser esquisitos
quando o frio agreste da solidão
nos toma de assalto o coração.
Falta o tempo ao tempo,
falta vida ao que devia ser sabedoria,
sobram palavras aos actos,
falta voz ao desejo e à raiva
sempre silenciada
em favor de um pretenso e conveniente
mal menor.
Porque arranjamos desculpas, perdoamos
sempre àqueles que amamos?
São agora mais longas e mais escuras
as noites,
mais forte a chuva
de encontro às janelas fechadas
de um quarto onde o mofo não conseguiu apagar o teu cheiro
e onde só adormeço agarrado
à almofada das lembranças
de um breve mas intenso Verão.