sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

LENÇÓIS DA ALMA

Quem me dera ver-te sempre assim vestida
de promessas diáfanas, alimentar o ego perverso
nos caminhos descobertos da tua vaidade cuidada;
quem me dera poder guardar-te, cativa, quase humana
na memória fotográfica de um tempo por mim inventado
resgatar-te devassa e submissa
no strip emocional de uma entrega despudorada e fictícia;
quem me dera poder passear a teu lado, mão na mão,
o teu beijo na minha boca, nos meus ouvidos,
soprando-me promessas que a mais ninguém confesso.
Quem me dera poder um dia navegar indolente
no mar sem fim dos teus cabelos, exercitar
neles o tacto, tomar-lhes o gosto e o olfacto,
frondosas ondas que rebentam nas minhas mãos
em ávidos espasmos de desilusão.
Quem me dera descobrir um dia o anêlo sôfrego
dos teus lábios,
untar os meus dedos no mel da tua chama,
espalhar o meu veneno no teu corpo como unguento,
desfalecer no céu do teu colo sem um único lamento
à distância inultrapassável de dois dedos de conversa,
de um monólogo devasso tantas vezes decorado
no silêncio indiscreto do meu quarto,
onde a ideia de um desejo do teu corpo abandonado
se passeia e me desafia dia após dia, atrevida,
na penúria exaustiva das minhas noites brancas
ousando as barreiras da imaginação, rasgando
os lençóis da alma e o tecido do colchão.

POR UM BEIJO (teu)

Dá-me um beijo, dou-te a vida
um único e singelo beijo,
dá-me um beijo mesmo beijo,
só um beijo mas que beijo.
Dá-me um beijo, dou-te tudo
o que tenho e mais ainda,
a vontade resgatada ao diabo,
qual de vós o mais perverso, o mal-amado?
dá-me um pouco dessa boca tão desejada
a ponta esfomeada duma língua molhada
qu'eu vendo o meu reino por 1 dia mais feliz
no aconchego quente dos teus lábios,
por senti-los, apenas e só por senti-los
com ou sem posse, 1 beijo com tudo, mas que beijo,
tocar no que deixares, ver apenas o que quiseres
querer-te sem me desejares, ter-te sem te dares,
por vezes corpo, nunca alma
e eu sem ti metade de quem não sei

um todo sem ninguém.

A POESIA MAIS BELA

Palmilho as ruas como um perdido, mais um vadio
à procura dum caminho a que possa chamar seu, duma resposta
de quem queira, partilhar o bom e o mau
que a vida ainda tem para nos dar.
Procuro um rosto no breu das minhas dúvidas
e por trás desse rosto um nome, um só
de alguém que de certeza não me quer,
porque a vida não nos quis enamorados,
deitados numa mesma cama, entrelaçados,
não nos quis deuses dos vales do linho,
cavaleiros das estepes da renda e da seda,
conquistadores da amazónia das noites eternas,
do odor do orvalho na mata cerrada
e das águas douradas dum Nilo apetecido.
Respiro na corda bamba de sonhos inadiáveis
saciando a sede em utópicos cálices
de um mítico e intragável Santo Graal,
engolindo sapos, encenando inócuos sorrisos
no vazio agreste das minhas preces inconfessáveis;
porque sou aquele que procura no amor
o prazer mais completo, o orgasmo inatingível,
o fim do arco-íris, a estrela mais alta e mais brilhante,
a poesia mais bela, a que ninguém nunca escreveu,
o amor de Pedro e Inês, das fábulas de encantar,
aquele que quer, depois de tudo... mais ainda,
mais e mais...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

MORRER NA PRAIA


Quis morrer na praia
Os pés descalços na areia ardente
entre o céu imenso e o mar intenso,
naufragar no fulgor dos teus olhos negros
como duas conchas raras, nuas
prenhas duma felicidade latente.
Quis mergulhar nas profundezas do teu corpo
conhecer-lhe os seus segredos,
as correntes e os afluentes,
afagar-lhe as formas, lamber
o sal das tuas feridas
com o mel dos meus beijos
e abandonar-me ébrio ao sabor da maré,
p'ra desaguar no leito perfeito dos teus seios
onde amarro o meu barco ao cais,
solto a âncora, fecho a porta


e jogo a chave fora

DIZ P'RA MIM

Diz p'ra mim que não foi um erro
amar como eu amei, pecar como eu pequei,
que não foi perdido o tempo
em que perambulando sem destino, sonhei
e m'enganei, roubei e até menti
em nome de um amor que eu inventei.
Diz p'ra mim como evitar a dor,
a insanidade deste desejo tão profano
de usar e abusar desse teu corpo,
de sublimar-te a cada instante
em loas que fraquejam por defeito
no intuito egoísta de t'enredar na minha teia.
Diz p'ra mim que ainda há esperança
de voltar a ser quem era, quem sempre fui,
que ainda vou encontrar alguém
que me queira apenas por quem sou
e que há um amanhã por descobrir
eu e tu, tu sem mim, nós dois,
um lugar, um motivo para não morrer,
um futuro para amar... e ser amado.

HOJE O AMOR...

Já ninguém fala de dentro para fora,
pergunta o que quer, diz o que sente,
já ninguém se despe para os outros
além da nudez sem vergonha do seu próprio corpo,
já ninguém olha dentro dos teus olhos,
elogia o teu sorriso sincero e cristalino,
compara-o às manhãs dum Sol escaldante e abrasivo.
Hoje o amor é um desejo que ninguém confessa,
uma urgente e breve troca de fluídos, um email
impessoal e resumido no lugar vazio de um coração.
... e enchias-me de beijos
como se gostasses do sabor dos meus lábios,
como se gostasses de te dar
como se soubesses
amar
mais além do que a ti mesma.
Mas tu não me beijas
e os meus lábios...
sem os teus são amargos.

MILIONÁRIO SEM VINTÉM

Levantei os pés do chão, quis voar
Fiz de Deus, invoquei-te humana
Vi-me tocar-te como se deixasses
possuir-te, no equívoco dos meus desvarios.
Senti-me saciado com tão pouco
realizado por um mísero instante
milionário sem um só vintém.

LAR

Tem que haver um lugar onde
alguém com quem
possa eu um dia ser feliz,
alguém com quem partilhar,
a quem dizer:
Contigo estou vivo
e onde tu estiveres...

estou em casa.

AINDA ASSIM

Ainda que por vezes a vida seja uma merda
(e tu sabes que é)
e que o amor seja mesmo como dizem
(fodido)
ainda assim estarei contigo
estarei sempre à tua espera.

SEM AMOR NÃO VIVA


Amar sem amor
tanto amor para nada
e quase nada poderia... ser tanto
tanto que bastava.
Amar amor assim
dum desamor que mata
e eu sem amor não viva
se amar-te não possa
se amar-te... não deva.

TUDO O QUE EU TE POSSO DAR


Tudo o que eu te posso dar é o gosto a contragosto,
o travo agridoce do meu desejo mais imperfeito,
fel e mel do meu pecado mais puro e perverso,
o desamor apaixonado e controverso, o sexo
que não confesso nem professo,
o verso e o reverso da minha insanidade,
das letras atiradas a esmo sem sucesso.

Tudo o que eu te posso dar é um pedaço de mim
que cria asas e faz que voa sem voar,
uma nuvem carregada que se dissipa numa lágrima,
rosa que não desabrocha, ressequida, solitária e esquecida,
um muito vazio que nos sufoca e nos afasta
quase sempre por quasee nada.

PEQUENAS COISAS

Há pequenas coisas em ti
pequenos gestos, pequenas palavras
momentos sinceros
de que nem te dás conta
e que me fazem sentir tão grande, enorme
vivo.
Um sorriso, um olhar
que para ti nada vale,
o silêncio
o toque ainda que breve dos teus dedos.
E eu deixo-te fugir por entre as mãos
carícias breves confidentes
abraços e beijos, o teu corpo (sonhado)
como um golo impossível
que todavia sofro,
um frango.

LUZ NA ESCURIDÃO


Vai-te amor se amor não queres!,
que tens tu então no lugar vazio do coração?
Tenho a vontade e o desejo
e sem saber nem bem porquê a ilusão
de um dia vir ainda a ser
luz... na tua escuridão.
Tive princípios, tantos!,
Moral, sei lá quanta!,
nada ganhei, tudo perdi!
Perdi-me eu também pelo caminho
sem destino fiquei sozinho.
Hoje não sei mais quem sou,
de tudo que um dia quis fazer ou ser
pouco interessa se amar é sofrer,
sei somente para onde vou,
para onde eu quero ir, sabes bem
mais além, bem além do que é suposto e sensato ir,
ao fundo do fundo em que me afundo
onde um dia imaginei ser bom morrer
no profundo mais profundo do teu ser
razão do meu viver.

PONTAS SOLTAS


Vivo confinado à tristeza
das batalhas que não venci,
da vergonha intensa e cruel
de nunca as ter sequer travado.
Vivo a frustração de um Coliseu inacabado,
um ror imenso de perguntas sem resposta,
pendente entre o certo e o errado,
tantas mentiras, algumas verdades - poucas,
entre o sim e o não, talvez,
traçando caminhos sem destino
de pontas soltas e nós por desatar
num amontoado de insolúveis "ses"
que tardam em descobrir um "nós".
"Se eu dissesse... se eu fizesse...
se eu soubesse..."; mas não sei.
Por isso nunca perco, nunca venço, padeço apenas
na vã esperança de uma vida que não mereço.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

APRENDER A CAMINHAR

É tão difícil aprender a caminhar
quando caindo nos levantamos
sabendo que voltaremos a cair;
é tão difícil fazer de conta
que somos donos de nós mesmos,
sem dados nem peões, sem dinheiro de brincar;
é tão difícil decidir, fazer, trabalhar,
comprar e gastar sem ter com quê,
poupar sem ter o quê, sofrer
dos outros o jugo nem sempre justo
de tudo o que em boa fé fazendo
se volta invariavelmente contra nós;
é tão difícil viver sem um manual na mão,
às cegas na corda bamba
sempre com o medo de falhar;
é tão difícil saber o que é de saber,
quem somos, p'ra onde vamos, o que queremos fazer,
acordar sem saber porquê,
dormir sem saber quando,
ter de trabalhar naquilo que não gostamos;
é tão difícil mentir só para agradar,
baixar a cabeça, agradecer
agradecer sempre, morrer
pouco a pouco numa overdose de submissão;
é tão difícil gostar do que vês ao espelho,
as primeiras rugas, os cabelos esbranquiçados,
a pele flácida, o sorriso forçado, os dentes cariados,
o corpo mole, um dia a mais que ontem
e os sonhos recentes há muito perdidos
no vazio imenso de quatro paredes
de tinta suja, já escassa. Onde páram eles?,
os amigos mesmo amigos, as promessas
que ficaram por cumprir adiadas,
a ambição, a esperança e a fé?
Onde pára o sorriso?, esse
que sem saberes enchia de luz
o breu intenso dos meus dias soturnos e tristes.
É tão difícil acordar, cair
assentar os pés no chão,
quando toda a vida sempre andámos
de cabeça nas nuvens, ideias ao vento

e asas nas mãos!

E SE?...

E se um dia eu te convidásse p'ra sair?,
beber um copo, falar de nós, ir ao cinema, passear,
um fim de tarde quente, os nossos pés cansados
na areia da praia marcados.
E se um dia me deixasses resgatar-te os sonhos
de uma infância quase esquecida, fazer-te rir...
enlaçar-te a cintura fina nos meus braços desajeitados,
esconder a tua mão na minha, ousar levar-te a casa, entrar,
ouvir os teus cds, rever a novela das três, ver um filme sei lá de quê,
sobreviver à tua cozinha, roubar-te um beijo,
elogiar o teu sorriso, despir o teu vestido, ver-te nua,
lavar-te as costas, desarrumar a tua cama, pedir-te... p'ra ficar,
se tu quiseres... se tu deixasses!... fazer parte da tua vida
mesmo que a vida fosse um dia
mesmo que a vida durasse uma noite.

A VERDADE


A caneta desliza como uma bailarina embriagada
no palco secreto de uma infundada esperança,
as palavras às cegas, muito embora certas
a reboque de uma memória ainda fresca
que não quero ver tão cedo esquecida.
Pela enésima vez, repito-me, perco a graça
naquilo que escrevendo não ouso dizer-te,
mas perto de ti sinto a premência
d'encontrar palavras novas, d'inventá-las,
d'adulterar um vocabulário assaz limitado
no que ao adjectivar-te diz respeito.
Desgasto-me baldamente em loas que fraquejam
no intuito desastroso de te enredar na minha teia,
porque a verdade é uma arma que nos mata
e se não mata fere, e se fere afasta-nos.

COISA POUCA, COISA NOSSA

Roubaste-e a incerteza expectante das manhãs
em que enfiados na cama, desencontrados dos lençóis
libertava o teu corpo das amarras do teu pijama,
confundíamos as nossas pernas, misturávamos os nossos sexos,
masturbávamos-nos um ao outro vezes sem conta
como se o tempo fosse coisa pouca, coisa nossa.
Levaste a luz diáfana do glamour da minha insensatez
quando te descobria íntima nos caminhos escusos da minha nudez,
quando a inquietante ternura dos meus beijos húmidos
lambuzava a tua boca dos restos de uma fálica sede.
E tu fingias que gostavas, como fingias que me amavas
com as juras de amor levianamente sussurradas
com que tantas vezes me levavas, me enganavas,
deixando-me desmistificar os meus tabus
desbravar o sentido proibido, fazer de herói
na tua selva como um Tarzan, primata
no emaranhado púbico dos teus cabelos púrpuros
que acariciava sem despentear,
quando me beatificavas em águas douradas
saciando a minha sede e a minha fome
na perene serenidade dos teus compassos
como versos de uma poesia indescritível
como se o tempo fosse, coisa pouca, coisa nossa.

EGOÍSMO


Não tomes o meu desejo por amor
nem tão pouco o meu amor como certo,
que o amor é uma dose indeterminada
de loucura e heroísmo, fervendo
nas águas turvas de um lume brando
num impreciso mas vasto travo

De egoísmo.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

CORRO E DESESPERO


Nos tempos que correm já mal espero
corro e desespero
por quem não vem, por quem não vai,
simplesmente me procura
na altura e no momento
em que mais lhe convém.

ALMA DE PÁSSARO

Quero ter alma e asas de pássaro
um coração de leão maior que o mundo,
quebrar a gaiola, deixar de ser Quasimudo,
alimentar os sonhos, semear a vida,
resgatar a esperança perdida
no limbo da minha eterna covardia,
fazer o ninho no aconchego do teu corpo.

RENDA ou SEDA

Para lá dessa vil fronteira que nos separa
ouço os teus pés que me fogem andarilhos
como um vento agreste que me fustiga a alma;
sinto a lenta agonia de quem perde o melhor do dia
(todos os dias)
a oferenda de um corpo orgulhoso em todo o seu esplendor
liberto de quaisquer trapos, vestido de promessas,
néctar dos deuses, colírio que nos faz crentes.
No inquietante roçagar do tecido sobre a carne
esvai-se o coração em lágrimas de sangue
e eu pressinto o suplício de uma quimera vã
em que aos meus olhos surges já vestida
no despertar de uma estéril espera.
Não, imploro, não te vistas!, não ainda!
Não te cubras num despudor despropositado,
não omitas a estes olhos por norma tristes e cansados
a alegria da harmoniosa simetria das tuas formas,
dos teus seios de ouvir dizer e adivinhar perfeitos,
do fruto maduro e pronto a colher
ousando sob o ventre desnudado, o gracioso
embaraço de uma sardenta Vénus reínventada.
Do lado de cá dessa linha que por instantes nos afasta
em silêncio me declaro e expio, sofro calado
por cada um dos meus pecados e suspiros mais ousados,
Não, imploro, não te vistas! Não ainda! Não por mim!,
se acaso algo conto, se acaso mereço, para ti
o privilégio da cedência dos teus encantos.
Não te vistas!, não me magoes uma vez mais
com o desprezo em que a tua natureza é fértil,
que é um tormento cada minuto desse tempo
em que um pedaço do teu corpo do meu se esconde
atrás de portas e botões, generosos decotes
de promessas que ficam por cumprir adiadas.
Chega de fugir, de ter medo de ousar, satisfazer,
rasga os disfarces que te prendem à raíz do medo,
faz-te à vida pela vida, faz-te presente,
despe a vergonha, o orgulho e o preconceito,
fica livre, fica nua, sempre e só em pêlo
na simbiose mais que perfeita de dois corpos
que se precisam e se querem... conhecer.
Não, não te vistas! Nunca te vistas senão de amor
que é um sacrifício inglório, tamanho tormento
imaginar-te às pressas, peça a peça
dos pés quase à cabeça, e em segredo
imaginar-me renda, imaginar-me seda.


PÁSSAROS FERIDOS

A dor maior que a tua dor em mim provoca
é esta impotência atroz que me castra os sentidos
este querer e não poder que me sufoca, nos afasta
e nos traz à deriva pela vida
como dois pássaros feridos
ao sabor de uma brisa perdida.

TENHO MEDO


Tenho medo do meu corpo, do teu
dos teus olhos nos meus olhos
onde sem querer me perco da razão.
Tenho medo da minha boca, da tua
e do meu nome nos teus lábios.
Tenho medo do coração
faminto que anda de paixão
e do que podem fazer as minhas mãos
se as deixar (à solta pelo escuro)...
se as deixares (passear em ti)...
Tenho medo do que sinto
se tudo o que sinto for só desejo,
se tudo o que sinto for só...
tu sabes... tesão. Tenho medo
do desejo, dum beijo que seja,
das loucuras que fazemos
quando não devemos
e das mentiras que inventamos
(e nas quais acreditamos)
quando perdemos o medo
do medo que temos.

SER RICO


Queria ser rico
ter muito dinheiro
um carro grande
uma casa enorme
férias doze meses por ano
e a carteira sempre cheia.
Queria ser rico
comprar saúde,
comprar amigos
soluções, uma vida.
Queria viver sem pensar em poupar
só gastar
e para sempre, bem ou mal
na saúde e na doença
ouvir-te chamar-me amor
mesmo que fosse
quase sempre por favor.

DOCE PESADELO


Se soubesses como odeio odiar-te
depois da infâmia desse doce pesadelo
onde por breves instantes te propuseste
dar-me abrigo nas asas duma fantasia minha.
Se soubesses quantas vezes fiquei eu preso
no desejo fútil de um poema, mãos atadas
na ânsia premente de corpos ausentes
e palavras sempre inconsequentes.
Se soubesses, mas não sabes!
Nunca quiseste sequer saber...
dum coração que quase foi teu,
duma amizade que deixaste cair no chão

e se perdeu.


para P.

TUDO PARECE MAIS ESCURO HOJE


Lembras-te? Eu lembro-me
dos dias felizes de ontem
em que a razão era um conceito abstracto
e por qualquer razão que fosse
estava sempre do nosso lado.
Lembras-te? Lembro-me eu,
mas hoje a razão é um travo triste e amargo,
soturno como o tempo, cinzento.
Tudo parece mais escuro hoje
só qu'eu sei que não é assim,
que esta não é senão a maneira
que os meus olhos descobriram
de exprimir a falta dos teus,
o vazio irracional da tua ausência.

DOCE FEL

(fotografia de Nuno Manuel Baptista)

No botão da tua blusa evoquei um campo de batalha
nesse último guardião duma castidade virtual
como uma bandeira qu'eu desejei desfraldar.
Adulterei-o mais a sul, no botão das calças, no fecho
qual muralha duma China de samurais e concubinas
que m'imaginei a derrubar devagar, devagarinho
sob a incestuosa cruzada dos meus dedos profanos.
Eis que chego à Cidade Proibida (e és tão bonita!...),
seguindo o destino d'afortunada gota d'abrasiva canícula,
desse vale onde se erguem sublimes Sodoma e Gomorra
à boceta de Pandora, a fronteira do pecado final.
Invejo-a, à gota, perdendo-se despudorada sob a renda
salpicada de um prazer insuspeito, doce fel
sabor de fruto proibido, leite, suor e sexo
meu Santo Graal, Homérica Avalon, Amazónia
dos meus intentos mais omissos e promiscuos.
Saí então, impelido de uma covardia moral
antevendo-te deitada, as mãos pressurosas nos botões
Eva mulher livre num corpo de menina semi-adormecida
longe das mãos suadas e do olhar ávido de uma cobiça amoral.
Abres a camisa, quase nua, quase pêlo
a humidade afaga-te o corpo submisso e dengoso
as mãos passeando-se p'los cabelos numa carícia
e eu sirvo-me dessa imagem como um bálsamo,
dos botões como um estímulo, da tua pele como lar
e do teu sexo minha heroína, meu doce incenso.
Do que ficou por ver imagino, desejo (deixa-me fazê-lo!...)
um sorriso, uma promessa velada, um pedido que não faço
uma resposta que não ouço, apenas sonho: sim! sim! sim!
Sonho contigo desde que te vi nesse leito deitada
onde venço os botões e tu abres a boca ao beijo,
entregas-me a língua... molhada.
Um baque surdo ecoa à esquerda do meu peito e traz-me
de volta à realidade da tua indiferença,
onde a felicidade é efémera, eterna só a saudade
e a dor de um momento que não vai voltar.


P'RA TE FAZER FELIZ

Toma a minha mão, não caias!
Toma no meu abraço o teu consolo,
o renovar de uma fé perdida,
o dissipar do frio e do medo.
Toma a minha mão, não fujas da vida
que eu estou aqui para apanhar as sobras
de um amor que alguém não quis, um ombro
feito à medida das tuas lágrimas
só para te fazer feliz.

domingo, 24 de janeiro de 2010

AGOSTO DE 2003 a 12 OUTUBRO DE 2004

SENTIDO PROIBIDO

Esses difíceis amores...
Carta a uma sombra sem corpo, imagem sem face
musa e anjo dos meus escritos e poemas

Nu, eis como me sinto - apesar de vestido, mesmo que sumariamente -, antevendo com deleite um pressuposto sorriso piedoso, quiçá trocista, que se antes me agastava agora quase me diverte de tão prevista te tornaste, e tu sabes, que o pior que pode acontecer a uma mulher é perder a capacidade de surpreender, esse fascínio que antes tinhas e que eu desprezava e agora perdeste e já lhe sinto a falta. É aliás improvável que esta carta de amor chegue um dia ao seu destino, causa e consequência de tantas linhas gratuitas, dias transviados e noites mal dormidas, já que nem as minhas prosas e poesias conseguiram amolecer esse coração empedernido e fazer-te achegar um pouco que fosse deste remanescente Dom Quixote caído há muito em desgraça por uma indiferente Dulcineia de quinta categoria. Mas valha a verdade, nada disto que agora escrevo faria sentido se não considerasse a mais ínfima e remota das possibilidades de esta missiva chegar às tuas mãos, que não ao coração. E se é um sonho, quem melhor do que um poeta para dar asas a mais um sonho? Pensas: "Lá vem ele com a mesma lenga-lenga de sempre, com o chorrilho já gasto de tão repetitivo de amores não correspondidos e de palavrões baratos a que teima chamar de poesia. Não passa de um pervertido!". Não vou mais mentir - omitir talvez, proferir meias verdades -, mas mentir, não. Não vou mais dizer que já pouco me importam os teus pareceres sem conhecimento de causa sobre quase tudo o que eu faça ou diga, mas a verdade é que são também escassas as minhas ilusões sobre aqueles que como tu me cercam, invariavelmente mais preocupados com o próprio umbigo do que com os meus sentimentos ou necessidades. Não me alimenta mais o desejo vão de te agradar, de inflamar esse ego que em troca retribui desprezando e ignorando todos aqueles que, como eu, um dia pensaram dar a vida por um sopro de paixão. Alguma vez tentaste perceber porque insistia tantas vezes em animar-te, fazer-te sorrir, quando só me apetecia chorar? Se soubesses como um simples sorriso teu seria só por si capaz de iluminar o breu cerrado dos meus dias de então!... Mas não!, quem quer saber deste inconsequente pedaço de matéria e espírito esquecido p'los Homens, descrente de Deus? Para ti sou pouco mais que invisível, aquele que mesmo sem o veres sabes que vai estar sempre lá, sem queixas, para o que for preciso, ansiosamente à tua espera, como um cachorro saltando e latindo de contente, mesmo que leve pontapés atrás de pontapés.
Aqui onde estou, o cu acabado de sentar, a barriga prenha de uma inenarrável e incompreensível ansiedade só comparável à das grandes noites de estreia: o primeiro dia de aulas, de trabalho, a primeira namorada, o primeiro beijo, a primeira vez, a primeira mentira... ou àqueles dias de testes que sem saber porquê, volta não volta, resgatamos a um passado longínquo, tantas vezes nos deram eles voltas ao estômago. Aqui onde estou ergo uma vez mais as mãos desajeitadas - cansadas de uma peleja vã -, os dedos grandes indecisos e imprecisos, rudes, martirizam já não a velha azert, companheira e confidente de tantos planos e frustrações, mas o teclado do meu PC, também ele conhecendo já os meus dedos de cor. Pobre e velha azert, resistindo anos a fio, estoicamente à violência amoral das minhas palavras escritas, como às longas ausências e maus-tratos às quais era frequentemente devotada, vá-se lá saber porquê. Porque acabamos sempre por perdoar e arranjar desculpas para aqueles que nos tratam tão mal? As novas tecnologias remeteram-na à condição de obsoleta, colaram-lhe o rótulo de ultrapassada, logo a ela que de tão cúmplice tantas vezes encheu sozinha os espaços que a escassez de inspiração tantas vezes teimava em deixar em branco. Hoje mal nos vemos, pouco nos damos ou contamos e onde antes havia uma confiança cega, amontoam-se agora fiapos de poeira que não chegam para disfarçar as primeiras rugas de ferrugem. Como ela, tento fintar o tempo que passou e não me viu, tento resgatar um sonho que nunca ganhou voz, tento agarrar a esperança perdida nos escombros escusos da adversidade. Palavras, nada mais, que se desvanecem esbatidas pela falta de empenho. Essas mesmas palavras que, não parecendo a quem as lê, já não vêm quando as convoco, escapam-se-me, como areia fina entre os meandros obscuros de uma memória torpe e desaparecem à primeira onda agreste de um Inverno imaginário, deixando atrás de si um vago mas indelével rasto de dor. Por tudo isso e muito mais, este livro é provavelmente o último que escrevo, cada folha um pedaço do meu corpo despido, extremamente enrubescido pelo insólito destes trinta e vários anos de expectativas e frustrações que carrego nas costas e na consciência como um fardo demasiado pesado para continuar sem partilhá-lo. A solidão, este vazio entupido de palavras que me sufocam é a minha cruz, esta ausência de uma vida própria, de um ser e estar social, de amor e de sexo. Ninguém pode gostar de estar só. Ninguém deve estar só. Este é o meu suicídio literário, quem sabe até emocional.
Este é o meu sorriso forçado de escárnio, onde no limiar do cadafalso da minha intimidade e, do alto da minha tão proclamada cobardia descubro a minha Humanidade em cada uma das minhas fraquezas, em cada um dos meus inúmeros medos e pecados. Na hora da derrota percebo, sem qualquer manifestação de regozijo, a mais amarga e retumbante das minhas vitórias.
Aqui onde me sento sinto a pressa de um final tão pungente como necessário, o dealbar de uma relação estupidamente absorvente que me manteve vivo de uma vida fingida, defunto sem certidão de óbito. Talvez as palavras tenham sido uma forma de suprir a vontade de me fazer notado, de ser amado e respeitado, uma defesa inconsciente ou não, uma forma cobarde de fugir do compromisso com a realidade, da incapacidade de me envolver emocionalmente, de me defender de um "não" que nunca ouvi, por nunca ter arriscado. Sim, confesso, sou dependente de amor, de esperança, de palavras etéreas e sonhos palpáveis na irreverente virtualidade dos meus sentimentos pautados pela inconstância. Só as paixões me desarmam e manipulam, trazem-me como embriagado, subserviente, um viciado sem vontade própria, uma marioneta vulneravelmente exposta aos caprichos de um qualquer diabo travestido de anjo.
Peça a peça as letras vão formando um amontoado de roupa suja junto de um corpo imundo. Fede, da promiscuidade podre em que os meus sentimentos se envolvem como porcos no chiqueiro. É assim a minha escrita nesta fase que pretendo tão efémera quanto possível, demasiado directa, sem grandes condicionalismos nem pretensões. E no entanto teria sido certamente mais fácil deixar passar em brancas folhas a urgência descritiva dos meus sentimentos menos dignificantes, em vez de divagar no strip emocional destes sentidos proibidos, mas esse era um caminho que eu conheço já de cor, de outras lutas que ficaram por ganhar à falta de serem travadas, palavras que ficaram tantas vezes na candura inibidora do papel à espera de voz qual Dom Sebastião irrompendo triunfante do mais denso dos nevoeiros, aquele, por nós criado, que nos castra os horizontes e o anseio de ir mais além do que o caminho à priori por nós traçado e antecipadamente destinado. Não acredito em destino. Revejo-me hoje como ontem no teor das minhas primeiras letras, nas ideias e nos sonhos, na inocência, como se a vida me tivesse apanhado parado. Leio-me ainda agora traços de uma ingenuidade anormal e inadmissível, menos explícita talvez, dissimulada por trás de uma amoralidade falaciosamente provocante e gratuita. Porém, seria na minha modesta opinião um erro encarar Sentido Proibido de forma leviana só porque segue um caminho distinto. São as diferenças que nos distinguem e nos unem como pólos que se atraem e que nos ajudam a marcar a nossa posição dentro da sociedade. Tenho receio de não ser aceite. Não por ti, já não por ti, mas por essa mesma sociedade, por todos aqueles a quem ainda não defraudei. Tenho medo de acabar sozinho, de não ter ninguém para me abraçar, para me acompanhar nos altos e baixos que o porvir ainda me reserva.
Não sinto particular orgulho no que fiz no passado em geral, tão pouco nestas linhas em que hoje disperso as minhas divagações, apenas o habitual prazer quase sadomasoquista de amar e de escrever para quem se ama - esses difíceis amores - uma carta de amor, a dor feita poema, flor já murcha mesmo antes de nascer. Este livro não deverá apanhar de surpresa todos quantos, com maior ou menor interesse têm acompanhado o meu percurso inconstante, já que este trabalho é afinal o clímax há muito adivinhado, o esperma literário de uma saturação mental, pessoal e moral, de anos e anos de uma rotina stressante e de expectativas vetustas. Diz-me a razão que devo medir as palavras com mais cuidado, sem aquela fúria desmedida que tem tudo aquilo que fazemos quando não pensamos nas consequências. Cuidado com a censura, essa velha aliada dos incompetentes, sempre na ponta da língua daqueles que no dia a dia praguejam em qualidade e quantidade muito mais do que eu neste palavreado mudo que poucos lêem. Que se foda a censura!
Envergonho-me, não escondo, por muito daquilo que ficou por fazer, por muito do que fiz, por não ter sabido ser feliz e até por ter gostado de ti. Não devia ter gostado de ti, não dessa forma, não com essa exuberância que chegava a dor de não correspondida, de tão injustificada. Porque teimamos em correr sempre atrás do que não devemos, do que a bem da verdade nem sequer precisamos? Porque insisto em desgastar-me baldamente enfrentando moinhos de vento que só eu invento? Sentido Proibido é tudo isso: é o aviso que ninguém respeita, o primeiro dos pecados, aquele, que matou o gato, a vontade inata de transgredir e desafiar, de marcar uma posição; é o primeiro charro, a playboy escondida debaixo da almofada, a virgindade perdida num vão de escada, a maçã roubada sem que houvesse fome. Sentido Proibido é o complexo desse tal de Édipo, da atracção da filha pelo pai e do filho pela mãe, é o incesto, a traição somente pela traição, é a nota emprestada da carteira dos pais, a mentira inocente, o primeiro beijo de língua, a masturbação, o ménage à trois, o buraco da fechadura da porta do quarto da nossa irmã. Há pessoas que vão ao futebol gritar com os árbitros para se libertarem da pressão do dia a dia, de tudo o que fica diariamente por dizer e que não dizemos. Há quem bata na mulher e nos filhos... Eu extravaso os meus sentidos com palavras de raiva, provocando, usando e abusando de palavras mais ou menos invulgares. Com essas, que visam enganar os mais incautos, fazendo-me notar pela singularidade, abri as portas de par em par à minha Caixa de Pandora, mergulhando fundo, bem fundo por mares nunca dantes por mim navegados, enfrentando monstros até então desconhecidos como a vaidade, o desejo mais intenso e até perverso de ousar e chegar cada vez mais longe, de aparecer, a afronta gratuita e vulgar que em nada me dignifica, antes pelo contrário. Feri susceptibilidades, provoquei a discussão, invoquei a implacável ira dos deuses, queimei-me nas chamas da Inquisição. A indiferença dos outros, embora possa ser por demais cruel não justifica tantos erros, assim como um pretenso amor não justifica que hipotequemos a nossa própria honra em prol dos favores e da atenção da pessoa por nós desejada. Mas quem sabe seja o que for dos meandros incongruentes e inconfessáveis da paixão? Eu amei a escrita, na ausência de uma mulher a quem pudesse devotar toda a minha paixão e veneração. E odiei-a com a mesma ou maior intensidade, cada ano a ela dedicado, enquanto a juventude me fugia do corpo como a cor aos cabelos. Amei-a apesar de nunca ter sequer aprendido a escrevinhar mais do que uma singela meia dúzia ou mais de palavras difíceis mas que ficam sempre bem no branco descolorido do papel, como uma vida nua e vazia que eu ansiava preencher. Amei-as, às palavras e às mulheres.
Vivo... ou sobrevivo, de migalhas, fiapos de atenção e caprichosa piedade, na esperança improvável de um desejo em que não me revejo, de um estímulo, entre o tudo e o nada mendigando nas sobras de outros corpos um beijo na boca, um abraço mais terno e apertado, dez minutos redentores de sexo ao desbarato, sem compromisso, com ou sem apreço, com ou sem preço, sem pejo nem amor-próprio. E o que é o orgulho para quem tem fome? Alguém me disse um dia que o orgulho é "o complemento da ignorância". A ausência afectiva e efectiva das coisas que não sabendo quero, tomou em mim as proporções gigantescas de uma enorme bola de neve, trazendo-me dia a dia mais obcecado pelos jogos de sedução e pelos profanos prazeres da carne, refém de uma sexualidade emergente no cárcere de um sentir recalcado, onde a fé se perdeu às mãos de um Judas sem moral. Hoje eu quero rir, quero chorar, quero sentir o bater do coração, cair e levantar-me, lutar, perder mas também ganhar. Para saciar o meu espírito, como outros o estômago, vendo o meu orgulho por pouco, muito pouco, ciente de que há prostitutas mais sérias e mais dignas do que este que te escreve. Não faço, nem pretendo fazer deste livro, destes comentários tão extensos a apologia do meu vernáculo injustificável, porque nada justifica o meu desejo insaciável, nem mesmo a razão insensata de te querer, que de tão intensa temi... poder vir a magoar-te. Tudo menos isso, apesar da alma esvaída das pedras que sem saberes me atiraste. Todavia sinto que hoje a solidão ganhou um peso insustentável, ameaçando abrir profundas e irreparáveis brechas na estrutura delicadamente frágil da minha alegada insanidade. Não sei se alguma vez chegaste a aperceber-te do que é a solidão, da falta que faz ter com quem falar, de quem nos oiça rir ou chorar. A ti nunca faltou quem quisesse seguir-te, dia e noite. Noite, é aí que bate com mais força a falta de um Nós que eu não soube cativar, levando-me a perguntar, se como eu também tu, às escuras, sob o relevo dissimulado dos lençóis te sentes só. Será que as palavras têm sentimentos ou mesmo sexo? Fazem-me falta os supostos prazeres da carne, desses esquemas que tu conheces de cor, o convívio nem sempre pacífico, a harmonia dissonante de uma vida a meias, o ciúme e o desabafo que não de monólogos estéreis e inconsequentes. Faz-me falta a assiduidade exasperante da tua presença, o toque desconhecido mas tão apetecido das tuas mãos e da tua boca forasteira na minha pele incauta e virgem. Fazes-me falta como um fio de prumo, como um farol, bálsamo para a minha enfermidade, como uma febre devastadora em que me quero consumir. Com este livro fujo do que sinto, dos sentidos proibidos que o meu rumo tomou. Sentido Proibido que é a antítese da poesia em si, o lado lunar daquilo que pareço, a pedrada no charco da minha alegada moralidade, o jacto prematuro de um virtuosismo duvidoso e prepotente, o prazer de ser quem sou... ao lado de quem eu quero, sem odes nem estrofes pelo meio. E querer-te é, sempre foi, o maior dos meus pecados. Mais do que certo convicto de nunca vir a usufruir da sorte ou do azar dos teus atributos, da duvidosa benquerença de uma entrega incondicional escolhi-te, egoísta, para musa das minhas derradeiras loas, sublimando-te em exercícios lúdicos de um sadomasoquismo exacerbado e demente, prisioneiro de uma realidade virtual e fortuita onde por vezes me contemplas com os teus pensamentos e com o resto. Não te amo certamente. Não sei se um dia quis amar-te, como não sei se porventura o amor existe, tal como o concebemos dos livros e da televisão. Logo eu, que desde há muito faço desse sentimento religião e fé, fundamento de toda a minha escrita e sentido primeiro da nossa existência. Não sei se o amor será essa coisa boa por que valha a pena matarmos e morrermos, se tanto nos fere, nos maltrata. Não sei... sei de tão pouco que chego até a duvidar da maior parte daquilo que sei. Sei que te quero ainda, isso sei, que a minha carne grita pela tua, num querer bem maior que o simples bem-querer, inventando histórias inverosímeis, obcecado por palavras e actos apaixonados, ternos e carentes, selvagens e loucos, devoto que sou de uma crença perdida nos caminhos esquecidos da tua soberba. Se te magoam as minhas palavras escritas ou faladas, os meus olhares oblíquos e perscrutantes invadindo a tua privacidade, os teus esconderijos e tesouros mais omissos, desculpa-me, dá-me a tua raiva!, nunca o teu silêncio. Mata de uma vez as ervas daninhas que insistem em crescer em redor do meu coração, dá-me espaço, deixa-me amar quem possa amar-me, escrever para quem me queira ler, viver para quem não queira apenas morrer enterrada nas memórias de um passado erróneo. Perdoa se puderes a ferocidade latente de um querer indómito, filha da carência, da falta de tempo, do desespero e do apelo sempre apetecido do fruto proibido. Sobrevivo sufocado por um desejo que não flui, a alma enegrecida por uma chama que teima em não queimar, fenecendo pouco a pouco condenado que estou ao insucesso das minhas paixões como rosas que murcham ao toque de um Midas perverso. Toda a minha vida foi um ror de desejos interditos, de amores clandestinos, impossíveis, proibidos ou amorais. Sonhei bem mais do que vivi, escrevi - tanto que escrevi -, sem nunca ter conseguido a mais bela das poesias, a que nunca ninguém escreveu.
Sinto que caminho a passos largos para o final da minha prosa, destes sentidos proibidos tantas vezes obscenos, de uma prosa poética, inestética, intimista e irreflectida, o filho bastardo de uma relação conturbada, do renascer de uma ténue esperança tão ingénua como frágil, que entretanto se esfumou; resultado indesejável de uma escrita atípica, a apologia assustadora de um pecado consciente, o direito de cair embriagado de um prazer indecente, o Deve e o Haver entre o certo e o errado do que fazemos e do que fica por fazer. Sinto que com isto saldo as minhas contas não com quem lê, mas com aquele que escreve. Chego aqui ainda com a incómoda sensação de uma nudez apenas parcial, de promessas que ficaram por cumprir adiadas, mais do que isso, com a frustração por aquilo que não escrevi, por todas as palavras mais ou menos bem delineadas e enleantes que imaginei e não soube transmitir-vos, por cada três/quatro linhas a que não consegui dar continuidade, por não ter sido leal para com os poucos que me acompanharam ao não ter chegado onde queria e sinto que podia. Sei que este livro não vai trazer-te mais perto, mas a poesia nunca me ajudou da forma que esperava. As mulheres não gostam de poetas nem de palavras enleantes e delicadas, dessas que um dia escrevi e hoje não escrevo mais.

Já não danço mais.
sem teus braços...
sou incapaz!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

VAMOS!


Vamos inventar um mundo novo
sem guerras entre a gente
e sem gente morrendo à fome,
limpar as lágrimas, esquecer o ódio,
pintar um sorriso enorme, branco,
usar os sonhos, desfrutar a vida,
ousar a verdade, viver em liberdade.

MAL TE CONHEÇO (E NÃO TE ESQUEÇO)


Tens o gosto de tudo o que eu gosto
e no que vejo a promessa
de tudo o que eu quero (e não devo),
nem sei se mereço!...
Querer e não poder, o céu e o Sol, a lua,
poema que não escrevo por não saber,
palavra que não me atrevo, muda
por quem mal conheço (e não me esqueço).

LEVA-ME A VER O MAR

Podíamos gastar horas e horas
inimagináveis, incomensuráveis,
construindo castelos, inventando histórias,
fazendo poesia, falando sem palavras
de desejos e segredos amordaçados.
Vem, leva-me a ver o mar, mostra-me
os peixes e os corais, a flora
e a fauna desses oceanos intemporais,
odisseias de Adamastores e Infantes,
d'encantamentos e trágicos amantes.
Mostra-me o sonho de uma nação,
recorda-me histórias qu'eu não esqueci,
aviva-me as feridas da memória,
dum porvir que se perdeu,
duma flor que não vingou, morreu,
da tristeza que me invade
de cada vez que vais embora
e do que fica: saudade
e uma imensa amizade.

BALLET


Poesia é o ballet da escrita,
é ter a boca e o coração
na palma das mãos,
é o riso sem gargalhada,
chorar sem lágrimas no olhar,
a voz de quem sofre
por sua própria vontade calado;
é falar sem precisar de ter com quem,
sem precisar de ter de quê,
é o grito silêncioso, a raiva surda
de quem vive na ponta dos dedos,
de quem pensa que ama, mas que apenas sonha,
sonha que vive, morre, sem dar conta
de ter um dia sequer nascido.

VOA

Em teus olhos borboleta
descobri eu asas p'ra voar,
um céu azul imenso
de desejos por saciar,
Abre as asas e voa, voa!,
rumo ao infinito dos sonhos,
Toma o tempo que eu não tenho.

PERIQUITO

Salto de galho em galho
como um enorme pássaro desajeitado,
um periquito sem ter onde molhar o bico,
depenicando nas migalhas duma vida fortuita
ilusões de amores perfeitos.

REFÉM da ESCRITA


Fiz-me refém da escrita à mingua duma vida sentida,
vestido a rigor d'ilusões prescritas,
quimeras românticas dum tempo perdido sem resgate,
jardins oníricos de uma devoção inválida,
confundindo amor em palavras e olhares, gestos,
fíapos de esperança dum cego que quer ver
aos olhos de desdém de quem tem com quem.
Rio-me à gargalhada da ironia de quem fala
de conselhos (fossem bons ninguém os dava!)
Faz isto! Faz aquilo! Mostra-lhes
qu'um homem quando quer, pode e manda, faz!,
Faz de conta que a mulher, apenas e só por ser mulher
será sempre uma qualquer, toda a vida
somente aquilo qu'um homem quiser!
rio p'ra não chorar, coração à deriva, escrevo,
devoto de uma fé à muito esquecida
de um Deus com corpo de mulher, musa
a que me prendo numa vénia, Vénus
de um amante sem amada, cheio
de um amor para nada.

GUERREIRA

Subornei teus braços com promessas de ternura
nesse breve instante em que baixaste a guarda
e serena adormeceste a impetuosidade constante
duma alma guerreira abandonada, tomei de assalto
a delicada maciez dos teus contornos
sob a ingénua inépcia dos meus dedos,
roubei-te um beijo fugaz, rendi-me
prostrado à saciedade dos teus ensejos.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

NECESSIDADE

Perto de ti não sou mais nem menos
qu'um pedaço regurgitante de desejo,
um mar bravio d'incertezas por dissipar
galgando sombras de um medo incerto
no rubor inverosímel dum desejo mal-contido.
Calo o que não devo, vejo-me
no escuro dum silêncio abrasivo, negando sonhos,
dores amordaçadas num viver contemplativo.
Precisei de ti antes mesmo de te amar
como o dia precisa da noite, o bem do mal,
o certo do errado, o côncavo do convexo,
entraste no purgatório duma alma enferma
como um anjo redentor, sem sexo nem idade,
só necessidade!

Sentes-te só, só isso,
um par de lágrimas secas, melancolia,
forças um sorriso, um esgar de alegria,
sentes-te só, só e apenas isso.
São facadas nas costas,
mentiras de quem gostas,

é vontade de me perder
(de mim)
sem destino,
talvez morrer
(antes do fim)

DEIXEI VOAR OS SONHOS


Perdi o desejo d'ir p'ra cama sem dormir,
d'olhar pró outro lado e procurar-te em vão
no aconchego dum abraço mais apertado,
perdi-me dos caminhos do teu corpo, do gosto,
desse gosto que tinha da tua boca na minha
(leite e mel),
quando me fazias acreditar que tudo era possível
(mesmo o impossível!),
quando ainda me beijavas, quando ainda me querias,
quando em ti me despojava do cansaço
e me encontrava no afago dos teus olhos nos meus.
Já mal nos olhamos sequer, sofremos baldamente
em noites dúbias de um prazer efémero e desleal,
em lacónicos túgidos de um deleite velado e estéril.
Perdi a vontade de acordar, a insistência em existir,
a liberdade individual, uma réstia de respeito,
os nossos direitos ferozmente fornicados
na cumplicidade ambígua dos nossos orgasmos simulados.
Perdi a pressa de chegar sem saber onde nem porquê,
a vontade de lutar, a adrenalina de ganhar,
abri as janelas da alma sem lágrimas
e deixei voar os sonhos de um amanhã por descobrir
nas asas dum fado tido como certo.

SEM TI

Sem ti sou um corpo cheio sem vazão,
um coração enfermo sem razão,
uma causa na gaveta esquecida,
um filho bastardo na desdita.
Sem ti sou um Che sem Cuba nem revolução
perdido à sorte p'las ditaduras da vida
como num beco escuro e sem saída,
um barco já sem remos, à deriva no mar
sem saber como amar, um ébrio céptico
nos braços duma ilusão, uma pedra

à toa p'lo chão.

FEIOS, PORCOS E MAUS


É uma espiral de demência
com laivos de violência explicita,
todo o mal-fazente é eloquente
todo o sermão inconsequente,
onde a lei é subjugada a ferros
perante a indiferença e o regozijo
dos que já não crêem, vegetam.
É bom estar do outro lado, pecar,
rasgar os limites, mentir, roubar,
ser feio, ser porco, ser mau... ser gente.
Olhos descrentes, impacientes, inflamados
comodistas, arrogantes, exasperados, cansados
duma rotina quase sempre amarga.
Ergo as mãos numa prece muda, estéril,
mas após os pontapés qu'a vida já me deu,
oceanos de lágrimas que já verti,
é difícil ser mais eu, continuar
a acreditar em ti. Que se f... a paz!
São parasitas, marginais e anarquistas,
contestatários sociais, oportunistas,
ratos à deriva numa sarjeta sem saída,
cuspindo atrocidades duma incongruência inarrável,
quase boçal, do escroto visceral
duma pseudo-inteligência de bolso.
Pressinto a pressa do fim, na intolerância,
no egoísmo e na hipócrisia
das pessoas simples como eu, na fome dos filhos
na miséria e desespero dos pais,
na impávida impotência dos que mandam e nada fazem;
pressinto o estalar do verniz, a guerra por um triz,
na falência dos mundos que se prometem sem fundos,
no abuso indecente da inocência: Venham a mim!,
as crianças, dêem-me o sangue e o sexo,
os corpos estropiados no horário nobre da tv,
as batalhas rácicas e religiosas, as doenças infecciosas
e o clone desse tal de Adolfo. Dêem-me a guerra!
Desvirtuámos do Paraíso o Jardim, pecámos
conspurcámos de heresia a Tua ilimitada confiança
de cada vez que sentávamos o cu
no trono das nossas reais necessidades,
santos de barro, de almas vendidas
de virtude despidos, de fé descalços.
Dá-me o juízo final! Apaga a luz do dia!
Deixa cair em nós o manto duma noite eterna,
com a ira implacável dum dilúvio insaciável
onde Possas lavar as mãos como Pilatos
nas águas turvas duma justiça cega.


"O Homem moderno é um Homem de mitos. Perdeu Deus, perdeu o ideal de cruzada, perdeu a Pátria, perdeu o próprio Homem."
Ruy Belo

GRÃOS DE AREIA

Às vezes basta um segundo,
um olhar breve, todavia intenso,
às vezes um segundo que se perde impreciso,
pendente entre o coração e a razão,
esvai-se a felicidade como grãos de areia
por entre os dedos de uma criança.

BESTA


E a besta irrompeu castelo dentro
disfarçada de peão, semeando caos e confusão
entre as ameias dum reino sem rainha,
profanando mitos duma suspeita valentia;
desceu o seu manto gélido descobrindo as trevas,
engolindo uma moralidade abstracta e fictícia,
fez o leão balir como um cordeiro, fez-me cair
do alto da minha própria altivez e arrogância;
os pés de barro turvos, enlameados, fétidos,
anjo à muito caído (em desgraça), cansado
de calcorrear sozinho as vielas obscuras da perversão,
velho pugilista de corpo moído, o orgulho ferido
antes, muito antes do fim do primeiro assalto,
sob o tremor duma insegurança mal-contida
dançarino na corda bamba, cabisbaixo
como um touro de raça prestes a ser capado;
rola a cabeça como um troféu num chão escarlate
dum castelo que tinha por meu, fendas morais
por onde a coroa da minha soberba se perdeu.
Sobrevivo exangue a uma morte precoce
abespinhado duma vingança nasciturna
de quem quer e não se ergue, o medo, besta negra
que s'encobre na bruma densa da cobardia
e me encontra cativo em meu próprio corpo.


"Apenas a violência pode acabar com a brutalidade dos homens"
Jean Genet

MASCARADOS

Diz-me o que pensas, por mais fútil que te pareça,
por mais estúpido que aos outros s'apresente
(deixa que as comadres emprenhem pelos ouvidos),
diz-me do tempo que perdemos, de tudo que não fizemos!...
Iremos a tempo? Horas que não tornam, vazias, tristes, secas...
as dos beijos que não demos, desejos que calámos,
das vezes que quisemos e não nos tocámos.
Qu'é dos nossos sonhos de petizes (castrados p'lo medo)
dos médicos e polícias, dos soldados que não fomos?,
do lego, dos golos, do frerè Jacques, dos tempos felizes?,
realidade assaz distante de tudo qu'hoje somos.
É tão difícil juntar um mais um, falar, escutar, compreender
quando pensamos no que os outros vão pensar ou dizer,
é tão difícil saber o que fazer, dividir
quando o nsso espaço deixa de ser apenas nosso
quando o simples Eu se torna num complexo Nós,
viver sem saber Como, partilhar sem saber Quando,
falar ou calar, só por poder parecer mal.
Queres compartilhar sentimentos, pensamentos,
carícias e antigas lembranças, esperanças,
sonhos quase mofos numa gaveta abastada de memórias mortas.
Como invadir um espaço, desventrar segredos
se escondemos na sombra o melhor de nós
num medo que nos traz dia a dia mascarados
com receio de não agradar, desiludir, defraudar.
Outras caras, outras ideias, disfarces!...
Sabes o que querem ouvir, o que deves vestir,
só o que convém, o que é de bom tom, ser In.
Atreve-te, desafia os limites da irracionabilidade,
dá um tiro no escuro, larga amarras, perde-te,
parte à procura de ti, da palavra fácil, da loucura sã,
faz tábua rasa da lógica do saber, ser e estar, vive!
Abandona-te ao vento nas asas dum sonho acordado,
no insensato engodo dum rendez-vous anunciado!
Diz: Hoje acordei com vontade de errar,
com vontade de pecar, de ser mais Eu
na incongruência das minhas expectativas,
irrelevâncias disfuncionais da alma adversa
sobre o Bem, sobre o Mal, mal
de quem nada arrisca... pouco ou nada faz.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

MAIS UM

Mais um sonho condenado ao fracasso
mais um pseudo-romance
mais um ror de poemas trágicos
qu'a ninguém pouco interessam,
mais uma queda no abismo
mais uma esperança nascíturna
na auto-comiseração que me consome,
mais um delírio inconsequente
uma paixão insane, um amor complicado,
mais um fruto proibido
um passo em frente rumo ao precipício
da irracionabilidade dos meus sentidos.
Quanto tempo durará?
quanto tempo irei penar?
quantos poemas de amor adverso irei escrever?
Cada sorriso uma porta aberta
rosto após rosto, uma palavra,
por uma palavra me perco.
Perco a razão e o decoro
no labirinto sem saída dum desígnio inevitável,
a eternidade não-compartilhada dos sentimentos,
um coração insuflado pelas costuras
numa espiral de paixões arrebatadoras,
à procura de um porto, cais de abrigo
de um corpo perambulando sem destino.

sábado, 16 de janeiro de 2010

SABES LÁ!


Sabes lá tu do que se diz por aí,
essa gente que se diz tão crente
e que fala sem saber, sabes lá tu!
Sabem lá eles o que é ser gente!
Há gente que se benze, gente que sente
gente que ri com vontade de chorar,
crianças à fome e ao frio, sem lar,
gente sem esperança, doente, gente decente
gente que apenas quer ser gente.
Os outros... sabes lá tu do que dizem
de ti, de nós, tu sabes!... Eu não.
Porque a palavra brotou dos teus lábios
como uma flor no deserto da minha insensatez,
como um doce: "saudade", disseste
e eu nem sei se é verdade.
Porque o que se diz por aqui... sabes lá!,
do que falam de mim quando aqui não estás,
sou o que se diz por aí, algo assim.
Tu sabes, assim-assim, o que anda só,
o que escreve daquilo a que chamam poesia.
Sabes lá do que se diz sem saber
de tudo o que se ouve sem querer,
dói, sabes lá! Queres ignorar
mas não consegues... esquecer.

UM HOMEM DE LETRAS

Sou somente um homem de letras despido de fé,
um homem de versos, odes e estrofes,
um eloquente na semântica de palavras distintas
que se cobre de sílabas, qu'inventa rimas.
Sou um homem que usa de parábolas e metáforas,
que faz da escrita desabafo, prosa e poesia
pequenas e modestas pérolas literárias;
um homem de letras caído em desgraça
que escreve de cor sobre desejo, sexo, amor
ódio, ciúme, vida e morte, um erudito
que nunca aprendeu a falar de amor,
que nunca ofereceu uma flor (que fosse)
que não fosse retirada dum livro,
jardins secretos de uma alma ferida;
um homem de letras, um contador de histórias
um mágico, um inventor, um carpinteiro de emoções,
martelando o seu próprio dedo por cada vez
que passa da palavra escrita à chamada oral,
que nunca encontrou as palavras certas
para expor do coração os sentimentos,
um homem de letras vestido de silêncios
que nunca disse um "Amo-te!"
mas que amou, que ainda ama
que não deixará de amar jamais,
porque a vida sem amor
não é vida, não é nada, é vazio, nada mais.

POR TEUS PASSOS, DULCINEIA!


Não traço o meu destino, não escolho o meu caminho
sigo-te, simplesmente


Que posso mais fazer dos meus pés
s'eles já seguem de cor o rasto dos teus?
Que posso mais fazer da boca qu'ainda nega
a mais insofismável das verdades?,
Gritando "Não", sussurrando "Sim".
Que posso mais fazer se aos olhos
por norma tristes e cansados, salta
o jeito descarado com que,
com subtil e encantadora destreza
me desarmas da couraça de ferro e aço
que me trazia imune às perdições
duma entrega despida de regras.
Que posso mais fazer, Dulcineia,
se aos olhos rejuvenescidos duma infância esquecida
renasce a alegria pueril de quem brinca com o destino,
pudesse eu, atrasar toda uma década num só dia,
enganar o tempo ainda que por uma hora,
mas a vida é madrasta, atira-te borda fora!
Uma hora, duas... oito, nunca mais! Menos, bem menos!
É longa a espera, eterna a saudade.
Volto à Primavera dum tempo vencido,
troco um jardim silencioso de palavras contidas
p'las melânicas cores dum anjo precoce
- foste tu que disseste: Angelical - anjo ficaste,
Guru de um pecado ainda por difamar
onde sujei a alma ainda sem ser corpo,
onde inventei o corpo já sem alma,
vendida ao desbarato
no desfasamento inapelável dos nossos dias
(dos nossos anos),
quimeras insanes de um porvir demagogo
que me traz mais que velho, mais que trôpego
(cansado, quase louco).
É um apaixonado um louco?
Galgo sombras duma noite eterna
vagueio da bruma dum cemitério de rosas murchas,
cores, sabores, odores duma infância remota,
Deito a fronte no jazigo da mente
onde mora o desencanto de um desejo premente.
Por teus passos, Dulcineia, saio dos escombros,
ergo a cabeça, lança em riste
cavaleiro da figura triste
numa peleja desigual contra antigos moinhos de vento,
somo óbitos, feridas por cicatrizar reabertas,
vitórias morais, conquistas, sadomasoquismo
de quem corre atrás de ilusões desfeitas.
Corro atrás da inocência perversa e das promessas veladas
que descubro em cada sorriso, pérfidos pedaços de paraíso;
rasgo o peito na constante incoerência das minhas palavras
e dos sentimentos a descoberto
em noites sujas de um prazer proibido.
Encontrado peregrino, perdido sem destino
no sereno ensandecer dum sonho lúdico, algures púdico,
uma fábula, uma miragem, um oásis intemporal
jovem Dulcineia, que tão jovem é, rédea à solta p'la vida
no inviável Shangri-lá dum Quixote em bruto, enlouquecido.

HOJE COMO ONTEM


Sou hoje como ontem
uma criança com uma bola nos pés,
mesmo que não saiba o que fazer dela;
Ontem como hoje
um menino quedo e mudo, perdido
frente a frente com uma menina bonita
sem encontrar o meu caminho.

SE EU PUDESSE...


Se eu fosse louco e não tão pouco...
se eu soubesse, se eu pudesse fazer...
faria do teu corpo uma festa minha
com surpresas, confeites e guloseimas,
um recreio de jogos e brincadeiras
com escorregas, baloiços
e sobe e desces de prazer;
Se eu fosse, s'eu soubesse, s'eu pudesse fazer...
fazia deste mundo ingrato, enorme
uma ilha pequenina, um jardim para o nosso amor,
onde pudéssemos ficar os dois, esquecidos do rancor
dessa gente, por demais dividida pelo ódio,
pela ambição, por uma moral arcaica, mortal,
por uma justiça já tão cega, sem vista;
Aqui, Alá, além, uma ilha, um pequeno paraíso
um novo Adão, uma nova e esplendorosa Eva, criar
como se o amor pudesse ser... Brincar,
viver como se não houvesse mal ou bem,
duas crenças, um só Deus e eu... por ti,
devoto de Maomé, profeta... em Belém.

PANACEIA

É o cheiro do teu sexo
que guia cada um dos meus passos,
que ilumina a perversa obscuridade
dos meus anseios e receios
quando as mãos se soltam pressurosas
frémitas dum delicado despudor
nas asas maviosas duma imaginação
sem freio, lascíva, incestuosa.
É ao teu sexo qu'eu me agarro como um bálsamo
quando a caneta galopa pujante
ousando desbravar um frondoso e obsceno Eden
de folhas imaculadamente virgens,
espelho diáfano dum rio que corre lento,
cá dentro, um lume brando que dilacera
o coração de quem por ti espera, desespera,
em promessas veladas dum amor sincero
protelando a improbabilidade do teu sexo
com regurgitantes devaneios, veementes delírios de cio.

EM SEGREDO


Mentiria se dissesse que não me dá prazer olhar-te
observar-te em segredo, de soslaio, imaginar-te
os teus braços e as tuas pernas como amplexos
embrulhados nos meus braços, nas minhas pernas,
as bocas siamesas, as línguas esfomeadas
dum tesão sem travão, num duelo devasso
p'lo sofá, p'lo chão da sala, numa cozinha mal-iluminada,
p'los lençóis anelantes de uma cama desarrumada,
bandeira branca que tu ergues desfraldada,
querúbinica musa que ao poeta se entrega
entre odes, suspiros e estrofes. Invento-te,
uma e outra vez no deleite de uma febre que me consome,
no lânguido roçagar da tua nudez na minha tez.
Calo-te do meu corpo frio, duma memória ainda quente
onde sem saber estiveste presente; calo-me das mãos suadas
e da ausência do teu corpo no meu; da guerra que ninguém venceu.
Em segredo, largo um beijo húmido no vazio do teu sexo.

DAS COISAS QUE SÓ EU SEI


Tanto qu'eu já escrevi de ti
nem sabes tu metade
das coisas que só eu sei
e que não conto a ninguém,
gritos dum sadomasoquismo eloquente
que ecoam na surdina das sombras,
tormento que não lamento
pecado despido de prazer,
contentamento descontente,
nado-morto, escondido
com vontade de crescer.

AMIZADE


Há um pote no fim do arco-íris de quem crê
a bonança no dealbar de tanta desventura
o acordar de dias soturnos com vontade de viver
crescer, participar - porque não? - ganhar.
Jogo o meu dia mais feliz por tão pouco
esse gesto que tu dás sem nada pedir em troca
um sorriso que se espraia no Inverno do meu ser
ilumina o olhar, aquece o coração
como pequeninas luzes fluorescentes
laivos de um Natal antigo com renas voadoras
e velhotes balofos de vermelho vestidos
com alvas barbas dum algodão doce imaculado.
É o grito de Ipiranga qual fénix renascida
dos valores que se levantam na aurora da esperança
no olhar puro duma criança, um sorriso de verdade
nessa palavra com que me acaricias: amizade.


os amigos não se vêem nas piores ocasiões. Estão sempre connosco... no CORAÇÃO

para a NUCHA

JUNTINHO AO CORAÇÃO


Tenho-te perto, tão perto
quando m'invento nos teus sonhos
quando t'invento nos meus braços

Esqueço a distância dos metros
esqueço a distância dos nossos anos
esqueço a distância dos costumes
esqueço a distância das palavras

da palavra escrita à palavra falada
de Roma a Meca com asas nos pés, perco
a idade da razão, quando te tenho perto
tão perto, à esquerda do meu peito, bem juntinho
ao coração!

AFECTO

Olho, sorrio, faço-te rir,
sinto a esperança confiada
dum partilhar de confidências, dou-te
um livro, um poema, uma alma que se despe
na penumbra de solidões perversas.
É longo o ritual, saudade, absurda a espera
horas que correm, sem delongas
dias, tantos dias de tardes vazias
e noites frias, tão frias.
Mais q'um sentimento indescritível
a urgência dum afecto improvável
a necessidade dum desejo condenável,
dois pássaros d'asas cortadas
sonhos roubados, impedidas de voar.
Murmuram as comadres em surdina
revezam-se os arautos duma anciã moral
castrando os sentidos do que é natural,
crenças e costumes que nos matam
com olhares esconsos e palavras viperínas
um não sei bem o quê, de sorrisos
que nos traem e silêncios comprometidos,
segredos, sonhos imaginados à espera de saciar.

UM LOUCO, UM REI


Na terra dos sonhos
onde os sonhos são feitos
há um sonho que me acorda
de cada vez que te vejo,
como um beijo, sim, um beijo
nesse leito que é teu peito
onde o sono se faz perfeito
onde o sono se faz sonho
onde o louco faz a sua lei
e eu sou, desse corpo qu'é meu dono
pouco mais que um servo, escravo
muito mais que um rei
irmão, amante... um parvo.

A TUA SAUDADE

(fotografia de Marcos Marin)

Há marcas que não se apagam nunca,
estacas profundas que fizeram sangrar
este coração estilhaçado, em cacos.
Há feridas que nunca cicatrizam
olhares que ficam, gestos e palavras
que nunca se esquecem, nunca se esperam.
Todos nós um dia, por mais ateus, fomos Cristo
às mãos dum Judas qualquer, todos nós
um dia nos crucificámos de livre vontade
na cruz da nossa ingenuidade e fé,
e de lá saímos, o orgulho ferido, cabisbaixos,
o corpo em chaga ardente de mil estigmas
e na cabeça coroada de espinhos a lembrança
de um pecado agridoce que por vezes me assalta,
me toma nos braços da penitência e me flagela
no castigo da tua saudade.

JANGADA DE PEDRA


A chuva encontrou-me a descoberto
meditando na força imensa e bruta
de imagens que me mataram um pouco mais,
o guarda-chuva fechado, os dedos nodosos e crispados
à volta dum cabo já gasto, os cabelos molhados
duma chuva miudinha votada à indiferença
por um torvelinho de emoções incongruentes.
Pouco a pouco solto as amarras
de um continente que não soube conquistar,
faço-me ao largo como uma ilha sem destino
rumo ao infinito de tudo o que não sei,
nessa jangada de pedra qu'eu próprio criei.
Fujo das horas tristes e dos caminhos transviados,
dum museu de passados que tardam em passar,
persigo fantasmas, arrasto correntes
acumulando teias de aranha em molduras sem retratos.
Sangue do meu sangue, um gelo que arde em lume brando,
é um elo sem raízes, um nó frouxo e langue
de laços que oprimem, de paixões sufocadas, verdades caladas
no sio duma família de amores vazia e cansada.
Assumam do vosso ventre o fruto,
vejam o meu olhar grave e sério,
sintam o ar pesado que emana
de tudo aquilo que hoje sou.
Não raras vezes quando às tantas eu me deito
nessa jangada à deriva e já sem freio
sinto sobre o meu peito
todo o peso
desse mundo complexo e feio.

04 DE OUTUBRO DE 2002 a 28 DE ABRIL DE 2003

SÓ, Rascunhos de uma Alma Adversa

Para a minha MÃE

Tudo o que hoje sou devo-o a ti, minhas virtudes e defeitos, a essência de uma personalidade que procurei moldar à medida do egoísmo das minhas necessidades, semeando ventos, colhendo tempestades, na certeza do porto de abrigo que são os teus braços, quais asas duma mãe-galinha, cuja força serve de pêndulo aos devaneios da minha inconstância. Tu és tudo e eu sem ti... nada sou, não obstante o peito inchado de orgulho quando fazes alarde de qualidades que eu próprio já olvidei. Sinto-me então pequeno, tão pequeno, tolhido pela mesquinhez dos meus desejos insaciáveis, envergonhado por tudo qu'eu não te dei e tu mereces. Sei que as minhas palavras ainda são mudas, que os parcos elogios qu'eu arranco à força do âmago das minhas entranhas caem invariavelmente no esquecimento daqueles que não os ouvem. A verdade é que a minha relação com as palavras é uma guerra profícua em danos colaterais, feita na brandura de acções e palavras inconsequentes que teimam em deflagrar incessantemente nos dedos desajeitados de quem prime o gatilho, manchando-os com résteas duma pólvora seca de arrependimento. Escrevo sem saber como nem porquê. Donde vem?, como e quando é que surge esta força estranha que me guia a mão?, que a polvilha com minguas duma mais que duvidosa inspiração e que a leva a escrever mesmo o que eu não quero? Como fechar esta torneira que me inunda a alma de uma verborreia improfícua, que expoe a privacidade dos meus jardins secretos e me distancia dos comuns mortais com as suas vidas simples e banais - mas vidas - a que almejo pertencer? Aqui, do purgatório onde expio cada um dos meus pecados, qual Madalena arrependida, renego àquele que com seu desprezo me dedica tão irónica dádiva, parente pobre da criação que é a arte de escrever apenas e só por escrever. Eu não sou um poeta, Mãe, não quero ser poeta. Nada sei dos meandros da poesia, da inspiração, versos brancos, estrofes, odes... Eu não sei de nada, sinto-a apenas - à inspiração - como um vento súbito que chega sem bater, quando sofro, quando amo ou julgo amar - tão pouco quero amar -, quando sonho acordado, quando odeio, raramente quando a procuro. Aí, fogem-me as ideias, fico atolado em palavras que não fluem, ficam martelando, massacrando uma saída airosa: a dúbia eternidade num tosco aglomerado de frases a que, paradoxalmente, ouso chamar de poesia. É esse o meu fardo, destino ou fado, servir de intermediário a palavras que diariamente me procuram como um flagelo a que não posso - ou não tento - escapar, conjugá-las em versos harmoniosos e lançá-las do escrínio obscuro das minhas memórias para a ribalta dum bloco de notas cheio de ideias desconexas onde se esvai a minha vida, submersa em castelos de areia e moinhos de vento, rascunhos de uma alma adversa de dor parida.
A vida não tem sorrido para mim, impávido que assisto ao conformismo sepulcral onde jazem todas as minhas convicções e revoluções. Vivo ainda com as sequelas de uma nova agressão numa sociedade que se diz civilizada, e que me perseguem até hoje de cada vez que me vejo ao espelho, de cada vez que volto a face para ver quem passa, de cada vez que acordo durante a noite, só e assustado. Agora sei o que é ter medo, não só real, físico, mas o medo de não saber lidar com esta nova emoção. Logo eu, que gritava a minha valentia aos quatro ventos. À minha volta ouço os conselhos experientes, o orgulho e a soberba de quem deixa andar, de quem pouco ou nada faz, dos que primam a sua conduta por um meritório egocentrismo. Embora todos me critiquem o empenho exacerbado, sei que valho cada cêntimo que ganho e que sai do meu corpo, de cada poro, em suor, em sangue. O meu orgulho está ferido mas é legitimo e a minha cabeça segue erguida, apesar dos espinhos morais que nela se cravam. As pessoas, aquelas que temos por mais próximas, insistem em ser as primeiras a desiludir-nos, a deitar por terra todos os nossos sonhos, o futuro imediato. O presente é um céu carregado de nuvens negras sobre os destroços ainda frescos de um passado recente, mas a esperança não é um sentimento vago, inócuo, apesar das "comadres" continuarem a "emprenhar pelos ouvidos". As minhas chagas são mais que a soma de paus e pedras, mas eu não desisto. Não desisto enquanto houver pessoas que me surpreendam, daquelas poucas que falam e escutam com o coração. Bebé, hoje és mais que uma amiga, és minha cúmplice e guardiã de confidências que não partilharia com mais ninguém. A tua sinceridade e maturidade surpreendentes para a escassez dos teus anos devolvem-me a fé, mesmo quando pareço carregar um fardo maior do que aquele que consigo suportar.
Margarida Rebelo Pinto descreveu a solidão como "a maior e a mais estéril das prisões (...), à força de te protegeres dos outros, ausentas-te de ti mesmo, e onde estás agora? Qualquer dia olhas para dentro de ti e já lá não estás." É de prisões que fala este livro, de algemas e cárceres psicológicos, de medos e normas pré-concebidas, tabus. É contra tudo isso que a minha voz se levanta à força de palavras, à força da poesia rude de quem sempre negou ser um poeta. Afinal, talvez um poeta não seja mais que um lobo que uiva para uma lua distante que só ele vê, um sapo à espera de um beijo impossível, alguém... que ainda acredita que a felicidade existe e que o Sol quando nasce é para todos!


"Sonha como se vivesses para sempre. Vive como se fosses morrer hoje"
James Dean


"As palavras que não foram ditas, o gesto imobilizado antes de nascer, o sorriso desfeito ao menor obstáculo... Ah, é preciso ter coragem para ser feliz"
Álvaro Pacheco


"Mais importante do que estar vivo é ser Humano"
do filme "1984"

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

não leiam O QUE PENSO nas palavras que ESCREVO

Desculpem-me! Leiam-me ou ignorem-me, mas desculpem-me, que não é meu intento ofender ninguém, antes metamorfizar-me em palavras, procurar alento e aconchego nas mãos, no olhar atento, no sorriso, na surpresa e na compreensão de quem me conhece e lê. Aqui onde estou, palavra a palavra, ofereço o meu corpo às pedras de quem nunca pecou, nem mesmo em pensamento. Não sou Santo! Deve ser tão chato ser um santo. Assumo minha mea culpa, minha máxima culpa diante da irrefutabilidade dos factos, dos argumentos desses energumenos dum regime bolorento. Em minha defesa só a verdade daquilo que escrevo. Eu não escrevo ficção, não faço crónicas sobre seres alienígenas ou amores perfeitos, os quais, com alguma sobranceria e uma pequena pitada de ironia sustento num mesmo patamar de irrealidade. Tudo o que escrevo é verídico, fruto de vivências pessoais ou não, de tudo o que nos "entra" pela televisão adentro, do que lemos, do que ouvimos, de tudo o que a bem da verdade até já sabíamos. Até essas palavras - vulgo asneiras - que agora vos chocam de tão escutadas, são já parte intrínseca do nosso vocabulário, mesmo que pretendamos ignorá-las. Quem me conhece sabe que não sou nem metade do que escrevo. Sobra-me a educação, falta-me a coragem. Porém, revejo-me constitucionalmente no direito de escrever da forma como escrevo, no direito que me outorga um Estado alegadamente democrático. Serei menos digno pelo uso de um qualquer vernáculo distinto? O conto de fadas perfeito de outrora deu lugar a uma sociedade moderna, anárquica e violenta, fruto de uma guerra de audiências sem escrúpulos por parte dos media. Todos vimos a queda das torres gémeas do WTC, os filhos bastardos da fome em África. Hoje sabemos donde vêm os bebés, que o Pai Natal não anda de trenó e que o sexo se faz a dois, a três ou mais e às vezes até nas sobras duma solidão atroz. Eu não defendo o sensacionalismo barato nem a pornografia dos sentidos ou a violência dura e gratuita, mas bem ou mal ela faz parte daquilo que somos. Escondê-la seria apenas adiar a solução dum problema imenso que devemos combater. "Eu queria apenas partilhar contigo a domesticidade sossegada de nós dois. Queria sentar-me ao teu lado, numa varanda sobre o mar, e escrever um romance que tu pudesses admirar". Foi assim com algum receio que ainda subsiste, com uma grande dose de incerteza, medindo as consequências de cada palavra, que não retirei uma virgula que fosse a este livro, quanto mais um poema, face à primeira rajada de críticas. Respeito-as, considero-as e tento aprender com elas. Mas eu sou tudo aquilo que escrevo, estes são os meus poemas, uns melhores do que outros, como as pessoas. Alterar fosse o que fosse seria como ir ao encontro de quem nos espera com o intuito prematuro de o enganar, com uma máscara na cara e duas pedras nas mãos.

CADA POEMA INACABADO

Cada poema inacabado
é um golo de letra não sancionado
dos pés dum qualquer astro virtuoso às mãos dum juiz de linha caprichoso;
é uma noite de luar, a melodia certa
um jantar à beira-mar e ninguém
com quem o partilhar.
Cada poema inacabado
é para mim não menos que um filho
da vida ceifado à nascença,
um aborto clandestino,
parto sem dor de ventre
de mente parida a ferros.
Nasço, cresço e morro
em cada poema inacabado
sem saber se é bom
ou não viver.

APENAS E SÓ


NÃO LEIAS O QUE PENSO NAS PALAVRAS QUE TE ESCREVO,
palavras, apenas e só, palavras
algumas mais ousadas, outras... nem tanto, cansadas,
salpicos d'ironia travestidos de poesia.

DISTÂNCIA

Ao abrigo da distância que nos separa
a tua felicidade permanece intacta,
a esperança, nunca morta, esmorece
na fúria compacta do que aos olhos se escusa,
mas o coração sente, o sangue pulsa
e a saudade é por demais profunda.

COBARDIA


E embora as saudades m'embriaguem a lógica da razão
compromissos inadiáveis impelem-me, porém
a outros fins bem menos atraentes
sem a formosura ímpar dessa paisagem idílica
colírio para uns olhos cansados e tristes
que já se escondem no escuro de mim
na cobardia atroz dum amor sem fim.

QUERIA SER

Queria ser o teu abraço mais gostoso,
a vontade do teu corpo
o teu abandono mais profundo,
a luz dos teus olhos
o nome na tua boca
o desejo d'ir sempre até ao fim
morrer
e renascer a cada instante.

ÍCAROS SUICIDAS

A noite mais escura e sombria de todas as noites
tombou sobre mim nessa manhã dos anos teus
como torres de babel em cinzas
e ícaros suicidas em queda-livre.
No teu bolo despido de velas, o sopro dum anjo negro;
o ar escoa-se num medo incerto, kamikazes em céu aberto
e os parabéns confundem-se desafinados
em gritos pungentes de morte prematura,
nos embrulhos desventrados sem presentes,
nas entranhas fedidas dum monstro
de pedra e aço com alma de gente.
Repito-te que os Homens não podem voar
mas não acreditas. Se não voam,
perguntas-me: Então porque se atiram eles?,
como heróis de ficção, mascarados da bd
aracnídeos lançadores de teias, desses
que velam o sono do teu herói-menino.
Ilumina a noite mais escura e sombria de todas as noites
o menino de uma avó que ainda canta na hora do oó,
reacende a chama no embalo de um sorriso
e faz da esperança o meu caminho
na noite mais fria o calor do teu abraço.


A todas as vítimas e aos heróis anónimos de 11SET01

PALHAÇO QUE CHORA

O que seria da minha vida sem ti
amor que foste o primeiro?
Que é que eu fui na tua vida?, nem te lembras!
Um homem qualquer com medo de uma mulher,
um poeta quedo e mudo, um palhaço que chora.
Primeiro amor, só desejo, pobre boca nem um beijo;
desde o Eden somos anjos e poetas,
homens e mulheres, palhaços e prostitutas;
leva-as o vento, amores mais que um
nas asas dum vento perdido na memória,
triste história aquela que escreveste,
dos meus sonhos que nunca leste,
da dor que ainda cá dentro mora,
mas o palhaço que nunca riu
também agora... já não chora.

PAUS & PEDRAS


... e num país que já foi de poetas
as palavras são agora paus,
as palavras são agora pedras,
que ferem na alma o mais incauto,
aquele que delas se dizia amado amante.

A devassidão dos meus pensamentos ímpios
leva-me a questionar a noção do pecado:
será a causticidade das minhas palavras
menos digna que a verborreia improfícua daqueles que sobre nada escrevem ou falam?

"Se soubesses não falavas
mas tu falas sem saber,
falas de cor como um erudito
escreves muito, não dizes nada."

Deleito-me na loucura do juízo final,
na falência de afinidades que me atraem
e me conduzem invariavelmente ao sentimento,
sempre, em correrias inconsequentes.

Com a alma mártir de profundas chagas
grito na eloquência de palavras dúbias
despidas dum contexto moralmente sóbrio,
políticamente correcto, indubitavelmente ético;
palavras que flagelam como paus... como pedras.


OS BELOS NOCTÍVAGOS


Sempre em lutas de um amor falido mas sempre correspondido, fugitivos em pecado, o suspense, o corpo afagado em suor, o medo de ser apanhado; os belos noctívagos amam e no amor são mais fiéis que a mais fiel das mulheres; em toda a festa que se faz, nos gemidos solitários a sós, nas noites mais escuras, nos lugares mais esconsos, libertam-se na sala, no quarto, sob os lençóis da cama, no chão; o devaneio proibido tornado real, a amante virtual, todavia perfeita. Ela nunca diz que não, nunca trai, nunca magoa. A imaginação é uma benção, fora-da-lei dos inquisidores da fé e da vã moral, tudo é possível, toda a distância se faz tangível, tudo se pode, tudo se faz; os cinco mais que irmãos unidos, gladiadores duma mesma causa na arena dos sentidos, cinco contra apenas um, perder... e mesmo assim vencer. Eles sabem do teu ritmo, da batida, eles sabem tudo o que tu queres, fazem tudo aquilo que desejas, clandestinos na penumbra, fabricantes de sonhos e ilusões; o elo mais fraco resiste obstinado mas é uma questão de tempo e a derrota anunciada não é mais que a vitória consumada do prazer mais primário. Cai então vergado à sorte o vencido, qu'é sorte sucumbir de tal morte ao mais forte, e no lençol restos dum labor intenso, dum estoicismo inglório, duma luta sempre vã.