quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

VOU-TE CONTAR UM DIA

Vou-te contar um dia, dos abraços
dos imensos e longos beijos,
do amor e do desejo,
do sexo a duas mãos e do resto,
de todas as vezes que o fizemos
e tu não estavas - mas gostaste.
Vou-te contar um dia, da dor
dos planos de outrora desfeitos,
da solidão das noites,
do lado escuro dos dias,
da vida sem vida
que é viver e não te ver,
ver-te e não poder tocar-te.
Vou-te contar um dia, hoje não.
Hoje vou trocar o certo pelo incerto,
as promessas por desejos,
a razão pela emoção.

Hoje, só hoje,
o teu sorriso é uma carícia fugaz
e a vida uma mentira
em que eu quero acreditar.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

PRECISA-SE: MUSA

Preciso de uma musa com carácter de urgência,
de alguém que me tire as palavras dos dedos
e as transforme em ousadia,
que me ponha nos sonhos asas de voar,
que faça dos versos carícias
e que apague o frio com beijos e abraços apertados.
Não precisa de ter o dom da palavra ou da escrita
apenas o da vida, do prazer
das emoções e da sedução,
do querer dar e receber,
que tenha a ternura da seda e a fúria da imaginação
e da luxúria velada dos sentidos.
Pedem os requisitos que seja romântica
que possua a candura e a inocência de um poema
e o delicioso erotismo dos escritos de Sade,
que seja mulher, amante, parceira e companheira
insaciável, deliciosamente louca
mas mulher principalmente;
que acredite em amanhãs
em dias em que as horas se perdem lá fora
e que a felicidade não é uma quimera, não caduca
nem tem prazos de validade,
e que a vida é tão somente aquilo
que nós quisermos que ela seja
o que quisermos fazer dela.

(que seja intensa)

sábado, 13 de fevereiro de 2010

NUMA PALAVRA SOLIDÃO

Por trás das palavras que não digo mas penso
sinto um grito amordaçado
feito de emoções contraditórias
como uma gravata apertada
cujo laço não consigo desapertar.
Balanço suspenso entre o certo e o errado
entre o dever e o querer, o desejo e a razão.
Em cada verso sou alegria
numa palavra solidão,
solto a cor e o pesar
na pena do infortúnio,
sou o amante imperfeito
um amor que não conjuga
uma sede insaciável que não extravasa,
um coração à deriva
a quem amar não basta
e sem amor não bate,

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

UM DIA...

Um dia...
ainda vou viver uma vida minha,

vou encher os espaços vazios
dar cor e luz, preencher de vida
os cantos escuros e obscuros
da minh'alma insane e cobarde.

Um dia...
vou buscar-te,

como quem procura um sorriso,
desses que a gente dá sem motivo;
vamos reinventar a história,
redefinir um sentido para o amor,
sem idade, nem tempo, sem limites,
sem grades ou sequer receios.

Um dia...
um dia vais ver,

vamos dar vida aos sonhos,
vamos soltar âncoras, vamos fugir
deste mundo feio e triste;
vamos-nos perder
vamos-nos encontrar.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

ANJO NÃO

Eu não quero ser um anjo.
Sei que não é por mal,
os anjos são bons
mas não digas que sou um anjo,
porque os anjos não riem, não choram,
não amam, não sofrem,
não comem, não bebem
nem sequer fumam.
Um anjo não peca,
não emagrece, não engorda,
nem sequer tem sexo,
muito menos mulher ou filho.
Um anjo não deixa descendência,
não sente medo, não tem pressa,
tem a eternidade como limite.
Eu não.
A idade corre, o tempo foge-me.
Por isso chama-me tudo,
mas anjo não
porque os anjos não vivem
e eu estou tão cansado
de ver a vida através de uma janela.
Quero arriscar, jogar,
ganhar ou perder,
participar dessa aventura boa ou má
a que alguns chamam vida
e eu chamo apenas...
sonho.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

SONHO E SONHADOR

Foste a minha revolução dos sentidos,
o despertar, o meu grito de liberdade,
o sonho impossível enfim realizado,
a porta aberta por mim fechada
a tantas outras páginas
de um livro que ficou por escrever.
Foste o dia presente,
o sonho diário de cada noite,
o motivo de cada acordar, a culpa
de se esgotar o dia em 24 horas
e mesmo assim parecerem poucas.
Foste o sorriso fácil dos dias felizes,
a fé e o futuro, as promessas
que o vento levou p'ra longe.
Hoje definho na ausência,
alimento-me de memórias,
mutilo-me sadicamente em desejos irrealizáveis,
perdi a vaidade e o orgulho recentes,
perdi o norte e a vontade de seguir,
sou livre...
mas sem ti não sei
ou não quero
voar.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

FALTA

Sinto falta da cor e da imprevisibilidade
do aconchego das palavras e dos gestos,
da suave inquietude que um olhar pode ter.
Sinto falta do calor do toque
e da falta da coragem irreflectida
perdida na esperança ausente
dos dias que não voltam mais.
Sinto falta do que não fiz,
dos beijos e carícias que não dei,
das palavras que pereceram mudas no papel.
Sinto falta dos dias de ontem
planejando amanhãs,
das janelas que havia para abrir
e deixei fechadas
e da vida que correu
e me apanhou parado.
Há quem viva de memórias
Há quem morra de saudades,
como pode ter alguém saudades
duma vida que nem sequer viveu?

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

NEGRA COR

Já não pedes sequer, como se adivinhasses
no que te não digo motivo,
para não ceder aos eventuais caprichos de um qualquer anjo negro,
como negras são as brumas em que me envolvo,
areias movediças que me afastam de uma luz que já mal vislumbro.
Negras são ainda as criaturas
a que a insensatez da mente e a escassez da carne me conduzem;
negra a cor do meu desamor,
que de tanto amor me consome e enfraquece.
Como pode o amor causar tanta dor e sofrimento?
E no entanto, ainda ontem me pedias.
Mas ontem parece já tão distante, desvanecido
pelo vento agreste dos sonhos desfeitos,
recordado agora por um incontrolável e momentâneo desejo impuro.
Já nem sei em que dia estamos, como antes me esquecera
do certo e do errado,
de quem sou ou quis um dia vir a ser.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

ROSA LOBATO FARIA (Abr1932 a 2Fev2010)

E DE NOVO A ARMADILHA DOS ABRAÇOS

E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada de carícias.
As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.
Alcandorada no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.
E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos.

Rosa Lobato Faria

HOJE (por alguém que não está)

Hoje escrevi sem ter para quem
um endereço sem destinatário,
lancei-me no vazio dos teus braços
e caí desamparado.
Hoje trocava as palavras por rosas vermelhas,
a razão por sentimentos
e a amargura no olhar
por uma réstea de esperança,
por um motivo para sonhar.
Hoje trocava a poesia
pelo prazer de uma companhia.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

SABOR DE AGOSTO


Agosto tem ainda o sabor amargo do meu desgosto,
do gosto antecipado de um corpo que não quis ser corpo;
do calor ausente dos teus dedos sobre a pele,
que do amor esquecidos não sabem mais acariciar;
da fome que os teus lábios teimam não querer saciar.

OUTUBRO DE 2004 ATÉ AOS NOSSOS DIAS


Acabaram-se os livros guardados na gaveta, onde as minhas poesias repousavam numa camada fina da poeira do tempo. A tempo, felizmente, consegui resgatá-los, em boa hora, graças à sugestão de um colega mas principalmente um amigo, que me trouxe a partilhá-los convosco, a fazer ouvir todo o silêncio da minhas palavras outrora mudas. Em boa hora, repito, - consciente de que provavelmente as ausências serão um pouco mais longas entre as postagens, à boleia dessa tal de inspiração e da imprevisibilidade dum tempo muitas vezes passado a correr, na crença de que muito existe ainda por viver para lá das palavras -, mas com a certeza de que continuarei por aqui, de caneta nas mãos (ou as mãos no teclado), pois este espaço há muito deixou de ser meu para ser de todos vós também. Vocês que passaram, que passam ainda por aqui, são a razão de ser deste espaço. Mais do que visitantes são amigos, mais do que isso vocês são hoje a minha inspiração. Obrigado!