segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

NÃO DIGAS ADEUS


Adeus, palavra triste
não a digas, por Deus.
É triste a partida, sentida,
cheia de um imenso nada,
olhos rasos de água.
Dói a despedida,
o vazio mata
a esperança parte...
Quem sabe um dia?
Quem sabe?...
do imenso nada
um denso tudo,
doce reencontro.
Não digas: demagogia,
quem sabe um dia
até breve, um amanhã
depois... um dia...
é triste a despedida
mas não digas adeus.

sábado, 19 de dezembro de 2009

A FLOR

Somos porcos, vira-latas chafurdando no luxo (lixo)
desse castelo de areia de nobreza escassa;
gritamos perdas a quem nos quiser ouvir
pilhamos - sem querer - ganhos alheios
a quem de direito, e não há respeito.
Prometemos o céu e a lua
consporcamos tudo em que tocamos
somamos óbitos em nome duma moral fictícia
e derramamos prazer em noites proibidas de luxuria.
Cadelas com cio aquecem nossas camas vazias e tristes,
Amor: palavra vazia, sexo: só com camisa;
Se tu quisesses... se tu deixasses...
chafurdar na tua lama, afundar-me
no degredo da matéria humana,
humidade em olhos vidrados, grandes mas cegos.
Insane e abençoada loucura
que não nos deixa ver aquilo
que não queremos ver.
Que foi que fizémos?
vagueiam negros corações, a boca armada de desprezo
o metal é letal e a palavra é uma arma: mata.
Vive-se no gume de uma navalha
e não há nada que nos valha;
vampiros exigem sange
o calor aperta e o ar fede a miséria moral.
Resta ainda a virgem, cacem a virgem
e todos mais que nos afligem.
Calem o verso e o poeta
a luz minha eterna namorada, jaz
no céu que a viu nascer.
E a flor? Quem esqueceu de a pisar?
Dispersa a noite, desabrocha o dia
o beijo, o sentimento imaculado
a esperança ainda viva no olhar duma criança,
o grito de paz, a revolta, a fé que dura
enquanto houver uma flor de pé.
Não aniquilem a flor.

NÃO SEI QUEM TU ÉS

Tens um sorriso
que amaina a minha tempestade
invadindo-me de um desejo
ensejo de te amar.
Não sei quem tu és
ou de onde vens,
o que foste, o que fizeste
só que adoça a minha boca
a expectativa do reencontro,
quando os horizontes se alargarem
e o Sol voltar a espraiar-se indolente
no meu coração doente.
Acalma, inspira a musa
a veia adormecida do poeta
as tágides do Tejo,
sangue quente que corre nas veias
veloz, louco, sem dono.
Toma nas tuas mãos
as rédeas da minha ilusão,
partilha nossos corpos mornos
escaldando de emoção.
És a chama acesa, a luz da vela
és saudade, ansiedade
de saber quem és
de ignorar quem sou.

DESCULPA



Desculpa se os meus olhos te procuram
se a minha boca se esconde no silêncio da dor.
Desculpa se tenho medo de lutar
medo de nada receber e mesmo assim ter de pagar.
Desculpa se tenho medo de ficar só.
Quanta gente não terá? Quanta gente não irá ficar?
Desculpa por tudo o que já disse
por aquilo que já pensei e a que faltou coragem de fazer.
Desculpa se o tempo que tens é curto
para mais este poema que te dedico,
saboreia-o com o teu desprezo
que é certamente o último que eu te escrevo.

NAQUELA PRAIA

Naquela praia, naquela noite
inventámos sonhos ao luar,
erigimos castelos de areia
junto ao mar que nos viu amar;
dois corpos nus, embriagados de sal
rebolámos sujos de prazer
na doce loucura de o fazer... amor;
ignorámos convenções
chorámos lágrimas
gritámos paixão
tivemos tesão.
Ali no chão... matámos
a fome e o sonho
juntámos corpos
misturámos linguas
lambemos desejos inflamados
e ardemos, até a água nos cobrir.
Descobertos de pudor, cobri-te
naquela praia, naquela noite
doce loucura de te ter.

PRANTO

São pedras a mais
é débil a carne,
o olhar grave implora clemência,
o coração langue
bate leve, levemente
mas não choro;
os rios estão turvos
a muralha é mole
e as palavras duras,
não dura a força,
escasseia a ilusão
no sangue que lateja,
que corre à toa
morrendo de vida;
o forte escarnece
o fraco padece
e não há perdão;
o sangue escoa
a vida esvai-se
o sonho puro acaba
no pranto seco
de um imenso nada.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

22 DE JULHO a DEZEMBRO DE 94

ÓPIO E ADRENALINA

Dedicado a Norma Jean Baker

No espaço de um mês, um novo livro, contendo alguns dos meus poemas preferidos, pérolas intemporais no escrínio da minha memória. Ao contrário do que o nome possa indiciar, este livro é o espelho latente de um certo desânimo e conformismo, que se estende a todo um universo que me rodeia. Talvez seja mesmo mais que isso, um certo sado-masoquismo em embrenhar-me nas sarjetas da alma, em denunciar alguns dos pecados de uma sociedade que obstam à possibilidade de porvíres de esperança. A minha escrita é negra por antagonismo à dedicatória que faço, aos "que souberam congregar à sua volta determinadas características que apaixonaram a opinião pública, dando cor à sua vida; pela sua tenacidade, pela forma como arduamente subiram a pulso os trilhos da fama e do êxito. Eles são o ópio e a adrenalina de milhões, o alvo de bancadas em delírio, o êxtase dos media...".

Verba Volant, Scripta Manent

UM DIA


Um dia os teus olhos vão ver
o que o teu coração já sabe
e que a tua boca teima em calar.
É o dia em que o muito se torna pouco
e precisamos de mais, muito mais
do que uma mera amizade.
Nesse dia vão ser dois a negar
vão lutar, vão-se agarrar
entre beijos e promessas bobas
vão descobrir o que é o amor,
no calor dessa luta vã
que ninguém vai querer ganhar.

VEJO O MAR

Vejo o mar
nos teus olhos dum azul profundo
nos teus cabelos de ondas revoltas
na tua vontade indómita de vencer
antes quebrar que torcer.
Vejo o mar
onde um dia desaguei e nadei para me afogar
nesse mar onde em teus braços
me embalaste, sem me enjoar, só amar
amar o mar.
Vejo o mar
nos tesouros que em ti se escondem
e onde eu perco a respiração.
Vejo o mar
na cálida maresia das palavras
palavras que a tua boca entoa,
sabem a sal.
Vejo o mar
nos meus olhos marejados
no cais da amarga despedida.

JOAQUIM

Como pode acabar assim
pobre, sujo e louco
velho amigo Joaquim,
baba ao canto da boca
olhar vidrado, embevecido
pelas miúdas que passam na rua.
Ah, Joaquim, Joaquim!
É triste ver chegar o fim,
um copo em cada taberna
e um lugar sempre à espera
no banco de um qualquer jardim.
Fala pouco quando sóbrio,
passa a vida a blasfemar,
trabalho, trabalho, trabalho
já não há, ninguém o quer.
Pobre e velho Joaquim,
vive de sonhos, amarga realidade,
cultiva-os, alimenta-os
é rico e ninguém sabe, é alvo de chacota.
Atrai-lhe a juventude que o afronta
as pernas bonitas, os seios quase à mostra,
não molhes as calças, Joaquim!
No tempo dele, coitado do Quim,
um beijo só às escondidas
namorar só se fosse para casar.
Nunca se enforcou, pobre amigo Joaquim,
nascido em tempo errado
vai morrendo pouco a pouco
a procurar os seus sonhos
no interior duma qualquer garrafa,
branco ou tinto... tanto faz!

APRENDIZ DE FEITICEIRO

Na cabeça fiz um esboço
mil e uma linhas de harmonia
umas formas tão perfeitas
tão suaves de carícia.
Mas um dia tu surgiste
e o esboço ganhou um rosto,
o que era perfeito ficou sem gosto
e o meu gosto ficou teu corpo.
Meus olhos aprenderam então a ver
o meu coração a desejar
apaixonadamente esse corpo,
obrigação de se me entregar.
Fiz de tolo, conquistador
fui aprendiz de feiticeiro
fui escravo e tu rainha
em teus tesouros Indiana Jones.
Desbravei teu corpo em flor
e mesmo assim não me chamaste amor,
esqueci o meu nome, perdi o tempo e o senso
fui louco varrido, fiz sexo sem sentido.
Chamei-te então... meu Shangri-la
fui Artur e tu Avalon
onde não me deixaste entrar.
Foi aí que compreendi,
deixei teu corpo em descanso
de ignorado fiquei demente,
descobri que o corpo também sente
ter uma mente que faz de ti gente corpo e alma em uníssono, aprendi
o orgulho de por ti ser amado,
descobri toda a razão, aprendi
então a amar-te.

O MEU LUGAR

Para onde vai o tempo?
Onde se escondem as horas
e os minutos que passam?
Para onde vão as recordações
as palavras e as ilusões?
Onde param os momentos
felizes da minha infância?
Onde está esse tempo
em que te tinha aqui, pai?
Onde param os sonhos
e tudo mais que existe
e se perde pelo caminho?
No passado? Onde fica?
Onde fica esse lugar
esse canto na memória
que ninguém consegue ver?
Onde fica p'ra lá ir eu?
pois é a ele que pertenço,
é nele o meu lugar.

ESSA TRISTE E LEDA MADRUGADA

Essa triste e leda madrugada
em que em meus braços tu pediste para ser minha,
parámos a noite, parímos magia
amargurada nostalgia em que a recordo,
os teus olhos nos olhos meus
uma boca que te implorava para ficar
mas tu não ficaste, partiste.
A última e a primeira
a mulher que eu mais amei
com esta maneira muito estranha
muito minha de te amar.
Agora, chora em meus braços a tua ausência
nesta triste e leda madrugada,
partiste, nunca mais voltaste
mas em meu peito destroçado tu ficaste.

FRAGMENTOS

São momentos, excrementos da memória, fragmentos
pedaços de um todo imenso e frágil,
são recordações, cores, nomes, lições de moral,
o certo e o errado, passado e futuro
dum presente sempre ausente.
São os cheiros da infância
que se esfumaram nas voltas que o ponteiro dá,
vidas e vidas, pequenos seres, pequenas vidas
actores dessa eterna comédia
que é o drama da vida de todos nós.
Sou um ponto no espaço
físico-temporal universal,
sou a pedra arremessada sem destino
deambolando às avessas pelo infinito.
Outras pedras há, outras vidas, outras mortes...
alguém que morreu ou foi morto
pela indiferença, pela falta de amor, pela vida.
Os pais não o compreenderam
a mulher amada não o amou
a sociedade não o aceitou: marginal.
Desistiu. Morreu? Ou foi morto?
Ninguém viu, ninguém sabe quem era,
não importa. Ninguém, um parasita.
Eu não quero morrer, amem-me!
Odeiem-me mas não me ignorem!
Amada mãe, adorado pai, qual de vós se esqueceu
qual de vós não se lembrou de usar...
Estou aqui! Vocês decretaram a minha presença.
Porquê? Que mal vos fizeram? Quem a mim m'irá recordar?
Quem de mim se vai apaixonar?
Aceitai a culpa, aceitai o fracasso
que fez de mim o que hoje sou,
um pedaço de nada do muito que vos quero.
Amor, eu e tu num cavalo de cordel
num sonho de papel timbrado
25 linhas dum azul em dó maior,
sinfonia desta vida sem cor.
Negro destino, negra a vida
negro penar, negro penar
Morte. É branca a morte
como as asas dum cisne encantado,
bagaço em que m'embriago, EU,
amargo tédio de comigo conviver
e ter de gostar, porque tem de ser.
Fragmentos são filmes a preto e branco
sem heróis nem vilões, sem roteiro... só vazio,
insolúveis degredos da matéria,
fruto da palha que comemos,
fragmentos desta vida acordados
recordados a contra-gosto pelas mãos
dum qualquer poeta de merda.

PADRE CURA

Puxa em cima, falta em baixo
a vergonha... o padre cura,
perna bonita, colo a condizer:
10 Avé Marias e 20 Pais Nossos.
Puxa para baixo, falta em cima
um dia deixa de puxar. Despe.
Despe a roupa, despe a alma
perde a vergonha e já nem o padre a cura.

JUNTO À ÁGUA

Sentada junto à água
recebe o vento na cara,
não tira ainda a camisola.
Sentada junto à água
chamam-lhe louca, alienada,
tem corpo de sereia
e mente de criança,
faz desenhos na areia.
Sentada junto à água
conta as ondas do mar,
ri de tudo e de nada, não fala
escuta e não ouve nada,
só a voz do mar.
Sentada junto à água
na areia molhada da praia
a brisa osculando-lhe a pele,
ela espera inconformada
por alguém que não vai voltar...
à praia, onde ela espera,
sentada junto à água.

A COR DO AMOR

De que cor é o amor? Que importa?...
Porque chamam mar ao mar,
porque chamam vento ao vento,
porque é que é verde a relva
a esperança e amarela a areia?
Seria realmente branco
o cavalo branco de Napoleão?
Porquê dar nomes às coisas, às pessoas, às cores?
Saberá a lua que assim se chama?
Que importância tem um nome?
Porquê dizer que o mar é azul
quando não é?... não tem cor.
E se tivesse... Ora!
Porquê se a amo saber se é Ana, Cristina ou mesmo João?
Que importância tem um nome
se a justiça é cega
e o coração não aprendeu a ler
só a sentir?
Burocratas que gostam de catalogar
complicar, pôr coleiras, rotular...
porquê aceitar imposições
porquê proibir de questionar?
É a água líquida, a pedra dura?
Se o preto é preto e eu disser que é verde
será verde o preto se eu quiser.
E que importa aos outros se o disser?
Pois, sou louco. Não tem importância.
E já agora...
de que cor é o amor?

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

POEMA DA CAMA VAZIA

A cama sem corpos em chama
sem o calor, sem o suor
sem o cheiro do pecado;
pobre cama d'alma vazia
sem a má fama de quem ama.

OLHOS NAMORAM OLHOS

Olhos namoram olhos
com olhares d'acesa chama
São meus olhos em teus olhos
olhares d'alguém que ama.

Olhos namoram olhos
quem os manda serem assim
tão doces como beijos
tão cruéis como punhais.

Quem dera deles fazer meus
para com estes dois olhos
não olhar para outros olhos
que não os olhos teus.

CRUEL

Cruel
porquê tão cruel
no seu jeito de estar e de ser;
Cruel
porquê tão cruel
desdenhar de quem ama
gostar de o ver sofrer;
Cruel
porquê tão cruel
falar sem saber
rir e fazer chorar
viver sem saber amar.

VERDADES & MENTIRAS

É verdade verdadeira, viver é agradável.
A mentira?, que absurdo!
O cinismo, egocentrismo...
Quem falou em capitalismo?
Homossexualismo, que infâmia!
A verdade nua e crua
sei-a eu, mais ninguém:
é o desporto amador
o cão que não morde
o cigano sério
a mulher virgem
e o político honesto,
o homem que não bebe, não fuma e não...
é a vergonha da palavra
que se esconde por trás da razão.
Qual razão? Qual verdade?
O porco na bicicleta?
O estudante que estuda?
Ou a saúde?... Saúde-se.
Pobre senhor rico tão aflito
com o destino do pobre Zé Povinho.
Pretos e brancos falam de igualdade,
enriquecer a trabalhar, fazer
o bem sem olhar a quem.
E eu ergo os braços ao céu
por o mundo estar tão bem.

NÃO ME CALEM

Não me calem
não calem nunca esta voz que clama e reclama
por um sinal: Liberdade.
Não, não me calem!
não chamem meu nome em vão
que a todos direi NÃO!
Não, não, não me calem
que esta voz é minha arma
minha razão e alma
meu propósito de viver
dar para receber.
Não, não me calem
não amordacem a esperança
palavra que a todos alcança,
o voo de quem sonha
a crítica que constrói
a verdade que dói
a dor, o amor
que eu defendo com fervor.
Nem a repressão o mata
nem a minha boca o cala.

FRUTO

Sou a obra final, a soma
daquilo que vocês me fizeram,
sou o atentado existencial
a mancha que já não sai
a culpa que ninguém reclama sua;
Sou o orgasmo prematuro,
sou do ambiente em que me criei
o fruto, a vergonha, a maçã bichada.
Por tudo o que quis ter e não tenho
por tudo o que quis ser e não sou
por aquilo em que me tornaram
deixo hoje aqui o meu obrigado!

EXISTÊNCIA

Caminho debaixo de um Sol escaldante,
passo a passo num lençol dourado, que queima
que me arrasa e parece não ter fim.
Procuro a brisa num gole de água tépida;
abraço a solidão que me rodeia e sufoca
mergulho no calvário do meu fado, beijo
cada chaga que rasga este corpo. E encontro-te.
O teu sorriso quente refresca-me a alma
em ardentes promessas, estendes a mão à piedade,
abres-te em toda a tua infinita generosidade.
-Vem, vem!... E eu vou.
Caminho até à eterna escuridão.

14 DE JUNHO a 12 DE JULHO DE 94

INOCENTES PECADORES, Estórias Marginais

Dedicado aos meus Pais

Em consequência de um início de 1994 bastante rico a nível de inspiração, a minha terceira colectânea de poesia levou pouco menos de um mês a ser elaborada, entre os meses de Junho e Julho. Talvez devido ao calor - alguns dos textos foram mesmo escritos na praia -, diversifico os temas, embora se verifique uma certa preocupação com o Tempo, com o viver num tempo errado em tempo incerto. À falta de uma grande paixão vivo de arrebatamentos ocasionais.

ROSA-FLOR

Olha a rosa-flor
que da flor se fez mulher,
da mulher o amor
e do amor a dor
da mulher traída.
No calor das promessas
a verdade da mentira,
pode a vida ser tão bela
e ter em si tantos espinhos?
Seu perfume ela perdeu
de traída se separou
e de dor quase murchou.
De mulher se fez flor
bela flor, livre flor
amada sem ser mulher
feliz somente flor
mas tão mulher, tão feminina
tão rosa, rosa-flor.

AMOR CEGO

Quis amar sem ser amado
quis viver quase morri
por esta vida abandonado
só tu, não sabes quanto sofri.

De ti meus olhos vou esconder
coração que não vê não sente
sentimento como esse tão demente
até na dor sentir prazer.

Saber que a todos dás
teu corpo, tua boca, fantasia
procuro feito louco encontrar
tua alma, se a tiveres.

Todos os olhos te olham
todas as bocas te beijam
todas as mãos te tocam
te exploram sem amar.

Amar-te, só eu,
aquele a quem suas mãos proibiste de te tocar
sua boca de te beijar, seus olhos de te olhar,
mas que mesmo na cegueira
não deixa nunca de te amar.

UM MUNDO NOVO

Vem, vamos escrever um poema
a dois, tu e eu, fazer sair da pena
esse sonho qu'eu quero tornar real
e não consigo, talvez... contigo
talvez... criar, criar um mundo novo
meu e teu, só nosso
sem ódio, só amor
sem fome, sem miséria
dividir para aumentar
o amor - nosso amor,
coisas bonitas qu'eu escreveria
se as quisesses comigo partilhar.

NÃO EM TI

(fotografia de Anésia Gouveia)


Em mim morreu o amor
que um dia por ti nasceu,
semente de vida, cruelmente
ceifada por ti à nascença.
Morreu por ti este amor
que em mim foi gerado,
nasceu um dia em mim
não em ti,
morreu um dia em mim
não em ti,
que em tão amargo berço
não poderia nunca nascer
tão bela flor, qual amor
que por ti nasceu
e em mim morreu.

MINTO

Minto quando escrevo, quando falo
quando penso e até quando sorrio.
Minto por prazer, por medo,
por mera obsessão.
Minto e não nego
que quem mente sonha
constrói uma fantasia
e faz de qualquer mentira uma verdade,
cria uma ilusão onde se esconde
e mente, quando diz
que assim consegue ser feliz.
E eu minto
com quantos dentes tenho na boca,
com a facilidade de quem conta um conto
e acrescenta um ponto.
Minto
quando digo do que gosto e de quem gosto
que de ti já me esqueci.
Minto quando digo
que sem ti não sou capaz de viver
porque se o amor dói não mata
e quando dói
o amor deixa de ser amor
passa a ser doença.
Minto se digo que sou feliz
e que sou feliz quando minto
mas minto mesmo assim,
pois mais vale dizer mentindo
aquilo que na realidade sinto
do que ser verdadeiro
e calar a quem se ama
o quanto nos faz sofrer.
Minto
e como seria bom se mesmo mentindo
me dissesses que me amas tu também.

JÁ TE AMEI

Já te amei, noite
outrora seduzido por teu encanto
e mistério me perdi.
Hoje não te amo mais,
perdeste toda a beleza
essa diferença, esse olhar
de ingénua malícia.
Hoje o luar não tem mais brilho,
tem sangue, tem mentira
excrementos de carne humana.
Já não há lua, não há apaixonados
nem poetas inspirados,
apenas sombras à deriva
irrequieta e fascinante
inquietante juventude.
Hoje os homens já não são homens
e as mulheres... que é feito delas?
dessas musas que um dia aprendi a amar?
hedíondas criaturas de olhos vidrados
rúbidos de loucura, mentes distorcidas
caminhando errantes.
Já te amei, noite
hoje não te amo mais.
Voltei a ter medo destes dias
já sem noites p'ra sonhar.

MINHA NAÇÃO

Nos seus olhos a paz
dos anos o peso
na sua voz a mágoa
de não poder voltar atrás,
erros meus, má fortuna;
no seu sorriso a doçura
de quem sabe perdoar
de quem sabe esquecer;
seu corpo de mil formas
qual delas mais seduz.
Em sua boca a fome,
corpo mutilado de mil chagas
embebidas no sangue viscoso
vertido por ilustres ancestrais.
Que fizeram de ti
que fizeram por ti
minha nação valente
carente de esperança
semente de descrença.

PUDESSES TU

Água pudesses tu
lavar toda a sujidade
que em meu corpo mora
e só ficasse aquilo
que realmente importa.
Água pudesses tu
apagar qualquer fraqueza
ódio, inveja, hipocrisia
que em meu peito crescem.
Pudesses tu
em tua essência cristalina
devolver-me à razão,
arrancar deste meu coração
o pecado e o desejo
e esse mesmo coração,
que tanta dor em si alberga.
Mas sou eu mesmo que,
com má índole te conspurco
com a mácula do meu corpo,
corpo em vão na vida
como tantos outros
morrendo aos poucos
por não saberem como viver.

PERDIÇÃO

Perco-me em sorrisos sem sentido
em pequenos pormenores, no brilho desses olhares
que derramam mágicas lágrimas
nas quais eu me afundo sem mácula,
nessa boca que antevejo com deleite.
E encontro-me nesse corpo, qual feitiço
que esconde e desperta em veladas promessas
e me desespera, m'inspira suaves carícias
à luz duma chama por acender;
Em tuas mãos as minhas brincando
desejando, desvendando segredos, montanhas
vales qu'inebriam e me deixam por ti acordado a sonhar.
Deixo-me então levar, criança que faz birra
por um brinquedo que deseja e não tem,
pos se tivesse, encontraria em ti o céu
e aí, me tornaria eu pecador.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

LÁGRIMA


Chove
lágrima rebelde
percorre o teu rosto numa carícia
e suaviza um esgar de dor
de alma cicatrizada.
Chove
e não importa
se depois dessa lágrima um arco-íris colorir
duma amálgama sem fim e um Sol surgir
pleno, em teus olhos doces e enxugar
essa triste e amarga lágrima.
Mas chove
gota a gota numa modorra constante
adornando a tua face singela de menina,
grãos de areia na máquina deste amor
lágrimas, destroços desta minha embarcação,
pois que, se a lágrima que desliza em teu rosto, amor
soubesse a sal, m'embriagaria eu
na humidade dos olhos teus
só para não te ver chorar
só para te poder amar,
chuva que em teus olhos nasce
e em meu peito mora, morre... e mata.

NÃO ME CHAMEM DE POETA


Não me chamem de poeta
porque poeta é aquele
que nas palavras liberta com ardor
essa dor com que se alimenta
e nela se inspira
para falar de amor,
sofrimento calado, gravado
nas folhas dum livro qualquer
guardado, esquecido, sem vida.
Eu não tenho a cor
não sou verso, não sou pássaro
engaiolado, incapaz de voar,
eu simplesmente não voo,
sou prisioneiro desta vida
já sem sonhos p'ra sonhar,
perdido na multidão
d'outros tantos como eu;
um falhado, sobrevivente,
quem sabe?, náufrago...
mas poeta?... Nunca!
Como pode ser poeta
alguém que hoje dorme
apenas para não sonhar?

SILÊNCIO


Palavras para quê?
Palavras, silêncio
só e apenas silêncio.
Na linguagem de um olhar
um grito, um gemido
um único destino
nem uma só palavra,
apenas... um olhar.
Minha boca não diz nada
teus ouvidos tudo ouvem,
linguagem mágica...
é amor.
Vamos fazê-lo:
Silêncio.

GOSTAVA

Gostava de acordar a teu lado
cingir o teu corpo nu entre os lençóis
e apertá-lo com tanta, tanta força
como se tivesse medo de o ver fugir.
Gostava de acreditar por uma vez
que não é apenas mais um sonho, um sonho bom
que depressa se vai desvanecer e me acordar
aqui, sozinho uma vez mais.
Gostava de apagar o passado,
eliminar todas as barreiras
que hoje por hoje nos afastam
e construir a dois o nosso futuro.
Gostava de te ter aqui, o Inverno lá fora e eu,
junto a ti pudesse acender os meus dedos
na tua pele, como fósforos
no teu corpo quente em brasa.
Gostava, ah como eu gostava
de poder dar-te aquilo com que nunca sonhaste
porque não0 sonhas sequer
que eu possa contigo sonhar.
Mas sonho.
E nesse sonho tu sorris para mim
com esse sabor da primeira vez,
teus lábios nos meus lábios se degladiam
teu corpo em meu corpo se une e se funde
enquanto o teu cheiro perdura para além
dos limites do aceitável, da imaginação.
Estou perdido, escrevendo, só para ti
mantendo viva a chama desta ilusão a que me prendo
nesta vida em que perdemos
até aquilo que não temos.
Gostava... ai quem dera
pudesse um dia, eu em ti reencontrar-me
e no teu corpo voltar a perder-me.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

PRIORIDADES

De escrever já não sou capaz,
se o tento não consigo
e o que faço não me satisfaz.
Faltam-me as palavras enleantes
que outrora corriam como loucas
numa fúria desenfreada;
falta-me a luz divina
que me faça enxergar
para além desta minha obscura realidade;
falta-me a inspiração,
falta-me o amor, intenso, desesperado
capaz de mitigar esta dor
de viver sem ser amado.
Remanesce a esperança
mas a esperança é um bocado de papel
onde a tinta já não quer chegar
e é na brancura desse papel
que a minha vida se esvai,
imaculada, sem sentido.
Ontem escrevi sobre este amor, tão grande
que não tem espaço dentro de mim,
sobre os filhos que eu queria um dia vir a ter,
do presente que não tenho
do futuro que persigo e não alcanço.
Amanhã talvez, volte a escrever.
Hoje, aqui, morro...
de vontade de viver.

domingo, 6 de dezembro de 2009

MORTE DUMA PALAVRA


Chegaste como quem nada quer
e ocupaste este espaço árido
que é o meu coração;
invadiste os meus domínios pouco a pouco
e eu deixei-me possuir por ti como um louco.
Foram palavras hábeis aquelas que me escreveste
doces e delicadas, salpicadas
com um toque qb de ilusão;
foram palavras de angústia
à procura de compreensão,
palavras ardentes que fizeram flamejar
este corpo, no desejo febril de te ver.
Mas todo o fogo acaba em cinzas
e as palavras são agora incongruentes, inconsequentes
breves linhas onde os meus sonhos se estrangulam
nas palavras vãs que me escreves, se consomem
na dor de ver-me de ti apartado,
mesmo dessa amizade que parece diluir-se
numa velocidade atordoante.
Mas é minha culpa ter acreditado
num sentimento que não existia
ter dado ouvidos a quem não fala, o coração,
contos de fadas que se lêem para camuflar a verdade
sob a máscara da ilusão.
Tu em mim só mataste o sentimento,
essa palavra a que chamei um dia amor,
e foi esse o mal. Tantas palavras....
que se disseram e que careciam de sentido,
pois que quando o sentimento é verdadeiro
toda e qualquer palavra se torna obsoleta.

MENSAGEM DE ADEUS

Nunca esquecerei a magnificência desse teu gesto
que se me apraz, muito me espanta,
que do cimo dessa tua altivez
onde reina a cegueira absurda
e uma mais que duvidosa inteligência
sejas tu capaz de tão eloquente gesto,
ignorar de todo esse amor
que um dia disse sentir por ti
e que aos poucos destruíste dentro de mim.

VIDA

Um muito cheio de nada,
um olhar crítico, uma boca amarga,
um coração que bate fraco
repleto de ilusões desfeitas.
Nada levarei, nada fiz
nesta vida que vivi.
De importante só os meus poemas,
os meus escritos, recordações, histórias
memórias de um tempo ausente
de que ninguém quer saber,
talvez nem eu.

MAIO DE 93 a MAIO DE 94

"REQUÍEM POR UM SONHADOR"

... é o título da minha segunda colectânea de poemas, no seguimento de Por Trás das Palavras e que se reveste de algum desencanto face à vida em todas as suas nuances. Vivia nesses tempos ainda perseguido pelas cinzas de um primeiro amor, duma forma tão intensa que era impossível não se reflectir em tudo o que eu escrevia, monopolizando o seu conteúdo. Em Dezembro de 1993 e durante duas semanas consecutivas, uma conhecida revista publica alguns poemas meus, motivando-me a dar um novo impulso ao meu prazer pela escrita, o que, aliado ao apoio de algumas - poucas - pessoas a quem dei a conhecer o fruto desses meus devaneios literários me levou a agradecer no prefácio desse livro a "todos quantos dispensaram um pouco da sua atenção à fluídez literária dos meus pensamentos (...), que me incentivaram a não deixar de escrever, a mais fútil das artes, aquela em que nos escondemos da vida para nos encontrarmos na solidão".

COMEÇAR DE NOVO

(fotografia de Yosef)

Vou fugir daqui, sem rumo nem bagagem
sem lugar p'ra onde ir.
Fujo duma multidão sem nome
desta solidão a que me prendi
e a que eu quero pôr fim.
Vou pular o muro, p'ra longe de tudo,
p'ra longe da Terra, do Mar, do Ar,
longe de tudo que me lembre
dum passado sem passado
e que me conduziu a este presente deprimente e desgraçado.
Serei um corpo no espaço à procura da essência,
dum futuro que eu quero construir
nestas minhas desajeitadas mãos.
Quero saber quem sou,
tirar esta venda que não me deixa ver nada
e partir às cegas na descoberta de novos rumos.
Quero encontrar o meu caminho sem medo de falhar,
quero violar todas as regras, ignorar
todos os conceitos préviamente estabelecidos
e que nos obrigam a seguir
sem nos perguntarmos porque.
Quero ser alguém que procura a liberdade
de poder afirmar que não foi apenas e somente
mais uma ovelha no rebanho.

MULHER


Teu corpo é musa
que me inspira, me seduz,
a sedução é uma arma
minha arma um verso,
verso de poema
poema que escrevo
pensando em ti.
Tu és tudo
e eu...
sem ti não sou nada.

A BELEZA MAIOR


É feia talvez
mas talvez por isso saiba quanto a amo,
por não ser bonita
e eu dela gostar tanto.
É feia talvez
mas ainda assim tão bonita
no que diz com o olhar
quando sorri para mim
e não diz que não, nem que sim, talvez.
Talvez seja feia
mas é nela que descubro
a alegria que procuro
e que só consigo ter
quando estamos juntos.
É feia talvez
mas aceitasse ela este amor
que para mim seria
(não talvez, mas certamente)
sempre bela até morrer.

PASSOS NO ESCURO

Não há nada aqui,
morre-se simplesmente
numa vida que fatalmente
há-de acabar na morte.
Não há nada aqui,
entre o céu e o inferno
entre o certo e o errado,
não há nada, ninguém.
Não há nada aqui
senão os dias que gasto
à espera de um sinal
que me leve até ti.
Não há nada,
já não há amigos
nenhum caminho a seguir,
apenas uma melodia
na Rádio Nostalgia
e um livro de poemas
à espera de quem o leia.
Não há nada aqui,
só o vazio, a escuridão
um deserto sem um oásis,
nada, ninguém, só tu, só eu
mas nem mesmo assim
eu consigo encontrar-te.

ESCUTA


Escuta
escuta um coração que bate descompassado,
escuta o que diz o olhar, quase grita
enquanto tu finges nada ouvir.
Escuta o gesto, escuta o silêncio,
eles falam da vida, dos sonhos
do vazio da solidão
dessa dor que conheço de cor.
Falam de ti
e dos caminhos que construo
para te trazer até mim.
Mas tu não vens, tu não escutas
um pobre diabo que procura,
procura por ti para ser feliz.
Escuta,
escuta tudo o que não digo
tudo o que não mostro
tudo o que não escrevo,
escuta.
Quero falar, quero gritar,
Fazer ecoar bem alto tudo o que sinto
e que esta minha boca não consegue dizer,
escuta, mas finge que não ouves
se quiseres falar aquilo
que eu não quero ouvir.


às vezes A Mais Bela Palavra de Amor é Dita no Silêncio de Um Olhar

ORAÇÃO


Está escuro, nada vejo, nada sinto
senão um cheiro tétrico de morte.
Sobre um corpo desmembrado
junto as mãos em oração,
procuro por um Deus desconhecido,
sem corpo, sem nome, e falo-lhe
dos meus olhos já cansados
dos horrores da guerra,
dos ouvidos já surdos
do troar dos obuses,
da boca seca e amarga,
do corpo sujo, da comida escassa,
da esperança que morre
nos gritos bem vivos
que povoam os meus sonhos.
Sonhos, apenas um sonho mau, mais um pesadelo!
mas os sonhos não contam do pranto das crianças,
da violência animal
com que arrancam vidas,
uso e abuso de corpos, pertences
humilhações e violações
de homens que matam homens
em nome de uma cor, religião ou vã ambição.
Conservo as mãos em oração
mesmo que não saiba rezar,
procuro alento.
Das trevas venha a luz, do ódio o amor
da morte o nascimento
e para os assassinos o perdão
pois é razão desta oração
a esperança
de um dia todos sermos irmãos.

sábado, 5 de dezembro de 2009

SONHAR



Sonho
E como é bom sonhar
acordado, a dormir
sonhar contigo
sem ter vontade de acordar.
Hoje vou sonhar
pensar que me queres
como eu te quero a ti
aqui, para sempre junto a mim
eternamente.
Sonhar
no teu corpo naufragar
ilha deserta, sem ninguém
para me salvar, e eu em ti
ficar perdido e gostar.
Sonhar
sonhar que vais passar
uma vez mais e desta vez ficar
amar, viajar
duas aves que voam paralelas
pradarias sem fim
luz ténue, luxuria,
no vale dos lençóis, a dois
sobre seda, tu corcel
e eu no teu dorso cavalgar, dominar
e ser por ti dominado
servo do teu jugo impiedoso.
Sonhar
acordado ou a dormir
contigo, nos teus braços
como embalado por morfeu,
para sonhar, sonhar
e nunca mais acordar.

EXPIAÇÃO

Hoje vens até mim, por fim.
Olhas-me com aquela ternura
tantas vezes sonhada e ansiada
mas nunca recebida.
Hoje fazes-me feliz na tristeza que me rodeia
e até parece pecado
que neste mundo implacável
entre o ódio e a inveja
de homens que matam homens
possa haver alguém que pense em amor.
Hoje queria ver o sorriso das crianças
ouvir-lhes as gargalhadas
descobrir o brilho do Sol
e a magia das estrelas.
Hoje queria fazer amor,
pertencer, ser parte de...
Se ao menos houvesse outra chance!...
Mas é tarde para mim
(para o mundo não sei)
Está a ficar tão escuro e tão frio à minha volta.
Estou preparada para partir
aconchegada na recordação deste momento.
Hoje deixei de respirar, o coração parou
não vai mais bater, não vai mais sofrer.
Amanhã serei pó, estarei no fumo branco
serei o nada, após o nada que foi
a minha fútil existência.
Agora vais-te, ouço os teus passos cada vez mais longe
enquanto eu luto contra a impotência
de poder reter-te, de poder levar-te.
Dai-me a vida, Deus todo misericordioso, dai-me a vida!
qu'eu juro nunca mais dela eu própria me apartar.
Foste-te, já não te vejo, já não te sinto
já não ouço os teus passos,
resta-me esperar deitada
pelo sopro quente que me envolverá
neste leito de pregos e madeira,
o fim do nada que fui
o princípio de tudo o que posso ser.
Amanhã já não estou cá
estarei no ar que respirares
serei a cor, serei o vento
serei tudo, serei nada
serei pó, serei... vida.

MORRER DE AMOR


Partiste
pela calada da noite
de uma noite sem estrelas,
partiste e não pensaste em quem ficou,
ficar, só a saudade
por quem partiu e não vai voltar.
Partiste atrás da felicidade,
em busca dos sonhos que ficaram por realizar;
no egoísmo de pensares em ti, só em ti
fugiste da luta, escondeste-te
da realidade na coragem do suícidio.
Partiste
no tempo e no espaço em que eu chegava
trazendo na bagagem a luz da esperança
em promessas de vida.
Mas tu partiste e a esperança morreu.
Ficou no ar o vazio, ficou a mágoa
a raiva e as desculpas.
Desculpa por ter chegado tarde.


Dedicado àquela que corria atrás do arco-íris

GRITO

(fotografia de Carlos Constantino)

Atrofiam-se as palavras na garganta
os olhos já doem de tanto vasculhar no escuro
e o coraçção recusa transformar-se em pedra,
são palavras que não posso exprimir
imagens que não consigo distinguir
sentimentos que não deixo de sentir.
Na quietude perturbadora da camarata
as palavras saem todas iguais
perdem-se pela porta esquecida aberta
confundem-se no toque de um clarim.
Rangem armários no raiar de um novo dia,
do lado de lá pulsa a vida
e dela se fazem os meus sonhos,
mas a realidade é distante
e a distância enorme, sofrida
e o tempo... o tempo escoa-se gota a gota
com uma violência atroz que nos dilacera a alma.
Nesta prisão de pedra
na solitária camarata onde me encontro
são muitos os rostos sem nome.
Nome só o teu, na formatura, na GAM, na Instrução
e penso o que não posso (nem consigo) dizer.
Revejo-te mil vezes na memória
construo na imaginação um sonho dourado,
castelo de cartas ao sabor do vento.
Olho demoradamente, com saudade, alguma raiva
e qualquer coisa mais, a tua fotografia
imagem de um sonho feito mulher
e grito, grito contra esta guerra que não é minha
grito, pela liberdade que me foi roubada
grito, pelos meus direitos violados
grito contra esta vegetação involuntária
e sinto falta do teu silêncio
do teu desprezo, da tua força
desse olhar mudo pelo qual eu vivo.
Sinto falta, muita falta
de ti.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

LIBERDADE

(foto de Hugo M. Macedo)

Que fazer quando se perde toda a esperança?
Que fazer quando já não há porque lutar?
Que fazer senão vegetar, sofrer, à espera do fim?
Longa e interminável espera.
Onde encontrar novos desafios
se a doença não tem cura?
Resignação que não conheço
há um escarcéu no cosmos do meu ser
onde o corpo procura a vida
que a derrota roubou à esperança.
Apaga-se a chama
deixa de bater o coração
morre a vida
e tudo por perdermos algo que nos chama
e a que chamamos nós...
LIBERDADE!

PALAVRAS MUDAS

O amor surgiu, fugaz
Minha vida mudou, por ti
Teu cheiro, teu jeito
sugestiona palavras de amor entoadas na brisa calma
de uma manhã primaveril.
Sonho = felicidade,
medo de acordar.
Duas mãos esmagam
um amor sem correspondência
sem mera declaração.
Meus lábios dos teus estão ávidos,
lábios
donde não saem mais que palavras mudas
perdidas num tempo já esquecido
envoltas num véu de cobardia.
Ilusão, sonho impossível, demagogia
amor, desejo, entrega, triste sonhador
eterno e dedicado vigilante
à escuta, mudo, perdedor:
adeus noção da felicidade
riso expontâneo, capacidade de chorar
alegria de viver
onde estão?
Que faço, porque escrevo e me torturo?
O mártir? O louco? E porque não?
Sonho e desilusão, amor e ciúme,
meu fado é negro e a morte...
a morte é psicológica, lenta e cobarde.
Vejo-te e esqueço... o passado.
O passado? Já lá vai.
Passou, não volta mais
"sorriso quente numa manhã d'Inverno
maré cheia engolindo a areia
ondas selvagens, Sol que se irá deitar
mais tarde
quando a realidade soar a recordação".
Esqueço quem não devo,
lembro quem não quero,
esqueço o que sonhei
esqueço a vontade de te esquecer
esqueço o sonho, perco o fio da vida
e de que vale a vida sem um sonho?
Vida/desilusão, solidão/agonia
e desisto... suícidio.
Ignoras-me e não sabes
que tal dói mais que o ódio.
Peço-te um pouco de amor, de sentimento
amor, ódio... nada tens para dar,
nada
além do que já deste...
Loucura!!!


dedicado à rapariga da varanda

DESDE 85 a ABRIL DE 83

"POR TRÁS DAS PALAVRAS"

ERA UMA VEZ...

Poderia começar assim, como tantos outros contos que antigamente se contavam e que tinham sempre um final feliz, em que o príncipe que tinha virado sapo por causa da inveja duma bruxa má era beijado pela heroína e viviam felizes para sempre. No Silêncio de Palavras Mudas é, todavia, uma história real, com sentimentos, desilusões e expectativas, feitas de palavras que raramente sairam do papel. Nela não vão encontrar príncipes ou bruxas, muito menos finais felizes, pela simples razão de ser uma história ainda à procura de um final. Não é apenas e só uma colecção de poemas, é um pedaço da minha história presente em pequenos apontamentos que fui tirando ao longo desta travessia do deserto e dos oásis que encontrei. Aqui falo de mim - mas não só -, falo de pessoas que se cruzam às vezes por um breve instante, e que ficam guardadas na memória, pessoas que se magoam entre si e a elas próprias à procura duma felicidade tão utópica quanto a dos fascinantes contos das nossas avós. Dizem que é difícil ser feliz. Não sei se é ou se somos nós que complicamos. Sei que sou feliz quando escrevo e às vezes isso basta-me.
Quando comecei a escrever, nos primórdios da década de 80, a poesia não tinha para mim o fascínio e a envolvência do enredo, a inteligência e o humor mordaz dos meus primeiros heróis de papel, em que eu me revia e onde realizava as minhas fantasias demagogas. Nessa altura, definia os meus sonhos e desejos como tarefas hercúleas, cabos das tormentas impossíveis de ultrapassar. Cada paixão, vivida no silêncio de palavras mudas sobrevivia de uma forma masoquista em cada conto ou poema, enquanto eu me fechava mais e mais numa concha fictícia que não só não me trazia imune à dor como ainda me deixava indefeso face à realidade.
Em 85 perdi o meu pai. Durante muito tempo senti-me sufocado pelo peso da responsabilidade, das esperanças que ele depositava em mim. Nunca me disse, mas eu pressentia-o, como algo inerente à nossa própria natureza. Por trás das palavras mudas, de todos os seus defeitos e virtudes, dos sermões sempre longos e das suas lições de vida, eu idolatrava-o, respeitava-o, compreendia-o. Infelizmente não cheguei a dizer-lhe o quanto, não "bebi" dos seus ensinamentos, não lhe disse: Podes contar comigo, eu estou aqui e gosto muito de ti!
Foram necessários quase quatro anos para que voltasse a procurar na poesia o escape a um estilo de vida completamente desfasado da minha realidade. O serviço militar endureceu-me e a poesia foi o meu grito de revolta, o elo à vida real e a forma de anular a distância física de um primeiro amor, já de si tão distante. A 15 de Maio de 1991 comecei a trabalhar. A prosa pertencia já ao passado e na poesia as primeiras palavras chegavam titubeantes, ingénuas, como uma criança aprendendo a caminhar, como eu próprio afinal, procurando ao longo destes anos todos inovar, quer ao nível da forma como do conteúdo, em busca de um novo vocabulário, mais rico, menos acessível, mais arrojado, tornando-o por isso mais vulnerável à crítica.
No Silêncio de Palavras Mudas é a minha história, a história de um sapo ainda à espera de um beijo que o transforme em príncipe, a história de uma busca incessante à procura de uma Cinderela; um apanhado quase completo de mais de 18 anos de escrita, desses filmes qu'ainda hoje faço na cabeça e invento no papel.