sábado, 16 de janeiro de 2010

04 DE OUTUBRO DE 2002 a 28 DE ABRIL DE 2003

SÓ, Rascunhos de uma Alma Adversa

Para a minha MÃE

Tudo o que hoje sou devo-o a ti, minhas virtudes e defeitos, a essência de uma personalidade que procurei moldar à medida do egoísmo das minhas necessidades, semeando ventos, colhendo tempestades, na certeza do porto de abrigo que são os teus braços, quais asas duma mãe-galinha, cuja força serve de pêndulo aos devaneios da minha inconstância. Tu és tudo e eu sem ti... nada sou, não obstante o peito inchado de orgulho quando fazes alarde de qualidades que eu próprio já olvidei. Sinto-me então pequeno, tão pequeno, tolhido pela mesquinhez dos meus desejos insaciáveis, envergonhado por tudo qu'eu não te dei e tu mereces. Sei que as minhas palavras ainda são mudas, que os parcos elogios qu'eu arranco à força do âmago das minhas entranhas caem invariavelmente no esquecimento daqueles que não os ouvem. A verdade é que a minha relação com as palavras é uma guerra profícua em danos colaterais, feita na brandura de acções e palavras inconsequentes que teimam em deflagrar incessantemente nos dedos desajeitados de quem prime o gatilho, manchando-os com résteas duma pólvora seca de arrependimento. Escrevo sem saber como nem porquê. Donde vem?, como e quando é que surge esta força estranha que me guia a mão?, que a polvilha com minguas duma mais que duvidosa inspiração e que a leva a escrever mesmo o que eu não quero? Como fechar esta torneira que me inunda a alma de uma verborreia improfícua, que expoe a privacidade dos meus jardins secretos e me distancia dos comuns mortais com as suas vidas simples e banais - mas vidas - a que almejo pertencer? Aqui, do purgatório onde expio cada um dos meus pecados, qual Madalena arrependida, renego àquele que com seu desprezo me dedica tão irónica dádiva, parente pobre da criação que é a arte de escrever apenas e só por escrever. Eu não sou um poeta, Mãe, não quero ser poeta. Nada sei dos meandros da poesia, da inspiração, versos brancos, estrofes, odes... Eu não sei de nada, sinto-a apenas - à inspiração - como um vento súbito que chega sem bater, quando sofro, quando amo ou julgo amar - tão pouco quero amar -, quando sonho acordado, quando odeio, raramente quando a procuro. Aí, fogem-me as ideias, fico atolado em palavras que não fluem, ficam martelando, massacrando uma saída airosa: a dúbia eternidade num tosco aglomerado de frases a que, paradoxalmente, ouso chamar de poesia. É esse o meu fardo, destino ou fado, servir de intermediário a palavras que diariamente me procuram como um flagelo a que não posso - ou não tento - escapar, conjugá-las em versos harmoniosos e lançá-las do escrínio obscuro das minhas memórias para a ribalta dum bloco de notas cheio de ideias desconexas onde se esvai a minha vida, submersa em castelos de areia e moinhos de vento, rascunhos de uma alma adversa de dor parida.
A vida não tem sorrido para mim, impávido que assisto ao conformismo sepulcral onde jazem todas as minhas convicções e revoluções. Vivo ainda com as sequelas de uma nova agressão numa sociedade que se diz civilizada, e que me perseguem até hoje de cada vez que me vejo ao espelho, de cada vez que volto a face para ver quem passa, de cada vez que acordo durante a noite, só e assustado. Agora sei o que é ter medo, não só real, físico, mas o medo de não saber lidar com esta nova emoção. Logo eu, que gritava a minha valentia aos quatro ventos. À minha volta ouço os conselhos experientes, o orgulho e a soberba de quem deixa andar, de quem pouco ou nada faz, dos que primam a sua conduta por um meritório egocentrismo. Embora todos me critiquem o empenho exacerbado, sei que valho cada cêntimo que ganho e que sai do meu corpo, de cada poro, em suor, em sangue. O meu orgulho está ferido mas é legitimo e a minha cabeça segue erguida, apesar dos espinhos morais que nela se cravam. As pessoas, aquelas que temos por mais próximas, insistem em ser as primeiras a desiludir-nos, a deitar por terra todos os nossos sonhos, o futuro imediato. O presente é um céu carregado de nuvens negras sobre os destroços ainda frescos de um passado recente, mas a esperança não é um sentimento vago, inócuo, apesar das "comadres" continuarem a "emprenhar pelos ouvidos". As minhas chagas são mais que a soma de paus e pedras, mas eu não desisto. Não desisto enquanto houver pessoas que me surpreendam, daquelas poucas que falam e escutam com o coração. Bebé, hoje és mais que uma amiga, és minha cúmplice e guardiã de confidências que não partilharia com mais ninguém. A tua sinceridade e maturidade surpreendentes para a escassez dos teus anos devolvem-me a fé, mesmo quando pareço carregar um fardo maior do que aquele que consigo suportar.
Margarida Rebelo Pinto descreveu a solidão como "a maior e a mais estéril das prisões (...), à força de te protegeres dos outros, ausentas-te de ti mesmo, e onde estás agora? Qualquer dia olhas para dentro de ti e já lá não estás." É de prisões que fala este livro, de algemas e cárceres psicológicos, de medos e normas pré-concebidas, tabus. É contra tudo isso que a minha voz se levanta à força de palavras, à força da poesia rude de quem sempre negou ser um poeta. Afinal, talvez um poeta não seja mais que um lobo que uiva para uma lua distante que só ele vê, um sapo à espera de um beijo impossível, alguém... que ainda acredita que a felicidade existe e que o Sol quando nasce é para todos!


"Sonha como se vivesses para sempre. Vive como se fosses morrer hoje"
James Dean


"As palavras que não foram ditas, o gesto imobilizado antes de nascer, o sorriso desfeito ao menor obstáculo... Ah, é preciso ter coragem para ser feliz"
Álvaro Pacheco


"Mais importante do que estar vivo é ser Humano"
do filme "1984"

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