terça-feira, 12 de janeiro de 2010

SER FEIO


Tudo à minha volta me parece feio
as pessoas, os actos, as palavras
que se dizem e que ferem sem pensar.
Tudo me irrita, mesmo a escrita
que teima em não sair com a fluência d'outros dias.
Sinto que no que digo minto
sem sequer saber porquê,
como uma bela e audaciosa prosa
digna dum qualquer Fernão Mendes Pinto.
Sinto uma inqualificável vontade de gritar
de ir à procura do atrito dispensável
qual Dom Quixote, às cegas
com seus moinhos de vento privativos.
Sinto-me velho e cansado, incapacitado
estranho em lugar incerto, bem vindo em lugar nenhum;
o que outrora parecia belo, toma agora
tons de falsete.
Os sorrisos são forçados, o sensual pornográfico
e as amizades jogos do mais puro interesse.
Tenho a mente suja, tudo me repugna e excita
quero desistir e não consigo.
Fujo aos olhares óbvios de sentidos
por maior que seja a sua indiferença,
ninguém me vê, ninguém sonha que existo
ninguém quer sequer saber.
Passam a vida em loucas correrias
destinos incertos, causas perdidas
escravos do stress.
Fosse eu também... escravo d'alguém
que não de falsas morais.
Saem à noite quais ratos de lúgubres tocas
soltam-se, gritam, dançam, bebem, caem, expoem-se
de alma despida renascidos dos preconceitos esquecidos.
Amor... só de camisa
êxtase... num cheirinho d'heroína.
Noitadas até às tantas, dormir...
só depois das três.
Não sei mais quem sou
da razão das coisas
do que faço, do que penso
da pura lógica do bom-senso.
Mãe, diz-me o que é certo!,
que eu por certo ando errante.
Fujo dessa gente toda que ama
com a mesma força com que odeia, que ri, que chora.
Eu apenas sonho.
Vivo na ponta de uma caneta
enquanto a tinta durar,
sonho denso de ser gente
ser igual aos outros, como tu
ser também imperfeito, feio
como o mundo à minha volta.

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