terça-feira, 26 de janeiro de 2010

RENDA ou SEDA

Para lá dessa vil fronteira que nos separa
ouço os teus pés que me fogem andarilhos
como um vento agreste que me fustiga a alma;
sinto a lenta agonia de quem perde o melhor do dia
(todos os dias)
a oferenda de um corpo orgulhoso em todo o seu esplendor
liberto de quaisquer trapos, vestido de promessas,
néctar dos deuses, colírio que nos faz crentes.
No inquietante roçagar do tecido sobre a carne
esvai-se o coração em lágrimas de sangue
e eu pressinto o suplício de uma quimera vã
em que aos meus olhos surges já vestida
no despertar de uma estéril espera.
Não, imploro, não te vistas!, não ainda!
Não te cubras num despudor despropositado,
não omitas a estes olhos por norma tristes e cansados
a alegria da harmoniosa simetria das tuas formas,
dos teus seios de ouvir dizer e adivinhar perfeitos,
do fruto maduro e pronto a colher
ousando sob o ventre desnudado, o gracioso
embaraço de uma sardenta Vénus reínventada.
Do lado de cá dessa linha que por instantes nos afasta
em silêncio me declaro e expio, sofro calado
por cada um dos meus pecados e suspiros mais ousados,
Não, imploro, não te vistas! Não ainda! Não por mim!,
se acaso algo conto, se acaso mereço, para ti
o privilégio da cedência dos teus encantos.
Não te vistas!, não me magoes uma vez mais
com o desprezo em que a tua natureza é fértil,
que é um tormento cada minuto desse tempo
em que um pedaço do teu corpo do meu se esconde
atrás de portas e botões, generosos decotes
de promessas que ficam por cumprir adiadas.
Chega de fugir, de ter medo de ousar, satisfazer,
rasga os disfarces que te prendem à raíz do medo,
faz-te à vida pela vida, faz-te presente,
despe a vergonha, o orgulho e o preconceito,
fica livre, fica nua, sempre e só em pêlo
na simbiose mais que perfeita de dois corpos
que se precisam e se querem... conhecer.
Não, não te vistas! Nunca te vistas senão de amor
que é um sacrifício inglório, tamanho tormento
imaginar-te às pressas, peça a peça
dos pés quase à cabeça, e em segredo
imaginar-me renda, imaginar-me seda.


1 comentário:

  1. Brutal no seu todo!

    Fico com este pedaço de céu que aqui mostras:

    "Não, não te vistas! Nunca te vistas senão de amor
    que é um sacrifício inglório, tamanho tormento
    imaginar-te às pressas, peça a peça
    dos pés quase à cabeça, e em segredo
    imaginar-me renda, imaginar-me seda."

    Beijo

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