terça-feira, 5 de janeiro de 2010

LOUCO

(fotografia de João Carlos Frigério)


Se és louco, deixa-me sê-lo um pouco,
não ter medo de acordar
sempre com medo de me atrasar,
correr para o trabalho
correr para casa,
meia-hora para almoçar
cinco, talvez seis para dormir.
E tu é que és aquele a que chamam de louco,
aquele de quem se faz pouco,
o que ama sem sofrer
o que vive sem medo de morrer,
louco, talvez um pouco.
Relógio não tem
horário não sabe o que é
e comida lá se arranja,
pouca, que o excesso só engorda.
Ri-se da vida, acha piada,
conhece-a como ninguém.
Normal já foi e não gostou,
a popularidade não o afecta,
não finge nem se esconde
nada tem, nada dá
só amizade e um sorriso
que nem a boca estragada apaga.
Pede um cigarro, maldito catarro,
um destes dias vai embora,
talvez p'ra fora.
Jornais não lê, televisão não vê,
de futebol sabe que se joga com bola
e da telenovela qu'é coisa de mulheres,
nem lhe interessa.
Estuda psicologia avançada, dessa
que se aprende na rua,
trabalhar agradece mas recusa,
morreu-lhe um dia a mãe
nos quintais da vida
d'enxada na mão.
Diz que é feliz, nunca pagou portagens,
calmantes e aspirinas sabe apenas
que se vendem na farmácia.
É louco, talvez um pouco,
e se és louco, deixa-me sê-lo também
louco, mas só um pouco.

2 comentários:

  1. Como dizem de louco, todos temos um pouco, creio que muitos se identificarão com alguma coisa aí como eu me identifiquei.

    Realidade pura.

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  2. A vida seria certamente mais mágica se fossemos todos um pouco mais loucos e ousados no bom sentido, como se vivêssemos num mundo onde não houvessem amanhãs.

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