sábado, 16 de janeiro de 2010

JANGADA DE PEDRA


A chuva encontrou-me a descoberto
meditando na força imensa e bruta
de imagens que me mataram um pouco mais,
o guarda-chuva fechado, os dedos nodosos e crispados
à volta dum cabo já gasto, os cabelos molhados
duma chuva miudinha votada à indiferença
por um torvelinho de emoções incongruentes.
Pouco a pouco solto as amarras
de um continente que não soube conquistar,
faço-me ao largo como uma ilha sem destino
rumo ao infinito de tudo o que não sei,
nessa jangada de pedra qu'eu próprio criei.
Fujo das horas tristes e dos caminhos transviados,
dum museu de passados que tardam em passar,
persigo fantasmas, arrasto correntes
acumulando teias de aranha em molduras sem retratos.
Sangue do meu sangue, um gelo que arde em lume brando,
é um elo sem raízes, um nó frouxo e langue
de laços que oprimem, de paixões sufocadas, verdades caladas
no sio duma família de amores vazia e cansada.
Assumam do vosso ventre o fruto,
vejam o meu olhar grave e sério,
sintam o ar pesado que emana
de tudo aquilo que hoje sou.
Não raras vezes quando às tantas eu me deito
nessa jangada à deriva e já sem freio
sinto sobre o meu peito
todo o peso
desse mundo complexo e feio.

3 comentários:

  1. Miguel, não consegui evitar que a emoção me arranca-se duas lagrimas, ao ler-te.
    Isto é assustador, a forma como consegues traduzir aquilo que sinto,muito melhor que eu própria.Este teu texto diz tudo: a vontade de fugir, a dor, a (ainda) esperança...o cansaço, o desespero entre o ir e o ficar...se me deixares, eu vou cntg nessa jangada sem rumo...não sei se é o mundo complexo e feio, se sou eu...

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  2. Partir sem rumo certo, como Colombo à descoberta de uma América ainda por descobrir. Até que nem era má ideia, hastear a vela, deixar o vento soprar e soprar, tendo à noite as estrelas como lençol e o horizonte como limite.

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  3. ...até ao infinito e mais além!

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