terça-feira, 12 de janeiro de 2010

FILHO DA PUTA


Sou filho de um povo que vive e sofre
no sopro brando e triste de uma canção
que é dor d'alma, de crença parida a ferros
no orgulho de sangue, suor e lágrimas
vertidas em vão por tão ilustres ancestrais.
Sou o orgulho presente num fado de Amália,
na ponta certeira da bota de uma pantera,
na pena molhada dum poeta sem olho, zarolho.
No mais sou o desprezo, da culpa sempre alheia,
da fome e da sede, da vontade de viver
sem ter nada p'ra comer - Viro a cara,
às crianças sujas em cada esquina
vendendo seus corpos de meninos e meninas.
É um peito seco de vergonha, de bolsos vazios,
de vitórias morais, da esperança adiada
numa política sempre errada.
Serei filho da puta desse país de merda
que na derrota já não presta?
O português não sabe
o português não vê, não fala,
o português não quer saber
dum país que ele próprio renega
de cada vez que não lhe interessa.

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