terça-feira, 26 de janeiro de 2010

DOCE FEL

(fotografia de Nuno Manuel Baptista)

No botão da tua blusa evoquei um campo de batalha
nesse último guardião duma castidade virtual
como uma bandeira qu'eu desejei desfraldar.
Adulterei-o mais a sul, no botão das calças, no fecho
qual muralha duma China de samurais e concubinas
que m'imaginei a derrubar devagar, devagarinho
sob a incestuosa cruzada dos meus dedos profanos.
Eis que chego à Cidade Proibida (e és tão bonita!...),
seguindo o destino d'afortunada gota d'abrasiva canícula,
desse vale onde se erguem sublimes Sodoma e Gomorra
à boceta de Pandora, a fronteira do pecado final.
Invejo-a, à gota, perdendo-se despudorada sob a renda
salpicada de um prazer insuspeito, doce fel
sabor de fruto proibido, leite, suor e sexo
meu Santo Graal, Homérica Avalon, Amazónia
dos meus intentos mais omissos e promiscuos.
Saí então, impelido de uma covardia moral
antevendo-te deitada, as mãos pressurosas nos botões
Eva mulher livre num corpo de menina semi-adormecida
longe das mãos suadas e do olhar ávido de uma cobiça amoral.
Abres a camisa, quase nua, quase pêlo
a humidade afaga-te o corpo submisso e dengoso
as mãos passeando-se p'los cabelos numa carícia
e eu sirvo-me dessa imagem como um bálsamo,
dos botões como um estímulo, da tua pele como lar
e do teu sexo minha heroína, meu doce incenso.
Do que ficou por ver imagino, desejo (deixa-me fazê-lo!...)
um sorriso, uma promessa velada, um pedido que não faço
uma resposta que não ouço, apenas sonho: sim! sim! sim!
Sonho contigo desde que te vi nesse leito deitada
onde venço os botões e tu abres a boca ao beijo,
entregas-me a língua... molhada.
Um baque surdo ecoa à esquerda do meu peito e traz-me
de volta à realidade da tua indiferença,
onde a felicidade é efémera, eterna só a saudade
e a dor de um momento que não vai voltar.


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