terça-feira, 19 de janeiro de 2010

DEIXEI VOAR OS SONHOS


Perdi o desejo d'ir p'ra cama sem dormir,
d'olhar pró outro lado e procurar-te em vão
no aconchego dum abraço mais apertado,
perdi-me dos caminhos do teu corpo, do gosto,
desse gosto que tinha da tua boca na minha
(leite e mel),
quando me fazias acreditar que tudo era possível
(mesmo o impossível!),
quando ainda me beijavas, quando ainda me querias,
quando em ti me despojava do cansaço
e me encontrava no afago dos teus olhos nos meus.
Já mal nos olhamos sequer, sofremos baldamente
em noites dúbias de um prazer efémero e desleal,
em lacónicos túgidos de um deleite velado e estéril.
Perdi a vontade de acordar, a insistência em existir,
a liberdade individual, uma réstia de respeito,
os nossos direitos ferozmente fornicados
na cumplicidade ambígua dos nossos orgasmos simulados.
Perdi a pressa de chegar sem saber onde nem porquê,
a vontade de lutar, a adrenalina de ganhar,
abri as janelas da alma sem lágrimas
e deixei voar os sonhos de um amanhã por descobrir
nas asas dum fado tido como certo.

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