quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

APRENDER A CAMINHAR

É tão difícil aprender a caminhar
quando caindo nos levantamos
sabendo que voltaremos a cair;
é tão difícil fazer de conta
que somos donos de nós mesmos,
sem dados nem peões, sem dinheiro de brincar;
é tão difícil decidir, fazer, trabalhar,
comprar e gastar sem ter com quê,
poupar sem ter o quê, sofrer
dos outros o jugo nem sempre justo
de tudo o que em boa fé fazendo
se volta invariavelmente contra nós;
é tão difícil viver sem um manual na mão,
às cegas na corda bamba
sempre com o medo de falhar;
é tão difícil saber o que é de saber,
quem somos, p'ra onde vamos, o que queremos fazer,
acordar sem saber porquê,
dormir sem saber quando,
ter de trabalhar naquilo que não gostamos;
é tão difícil mentir só para agradar,
baixar a cabeça, agradecer
agradecer sempre, morrer
pouco a pouco numa overdose de submissão;
é tão difícil gostar do que vês ao espelho,
as primeiras rugas, os cabelos esbranquiçados,
a pele flácida, o sorriso forçado, os dentes cariados,
o corpo mole, um dia a mais que ontem
e os sonhos recentes há muito perdidos
no vazio imenso de quatro paredes
de tinta suja, já escassa. Onde páram eles?,
os amigos mesmo amigos, as promessas
que ficaram por cumprir adiadas,
a ambição, a esperança e a fé?
Onde pára o sorriso?, esse
que sem saberes enchia de luz
o breu intenso dos meus dias soturnos e tristes.
É tão difícil acordar, cair
assentar os pés no chão,
quando toda a vida sempre andámos
de cabeça nas nuvens, ideias ao vento

e asas nas mãos!

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