sábado, 5 de dezembro de 2009

GRITO

(fotografia de Carlos Constantino)

Atrofiam-se as palavras na garganta
os olhos já doem de tanto vasculhar no escuro
e o coraçção recusa transformar-se em pedra,
são palavras que não posso exprimir
imagens que não consigo distinguir
sentimentos que não deixo de sentir.
Na quietude perturbadora da camarata
as palavras saem todas iguais
perdem-se pela porta esquecida aberta
confundem-se no toque de um clarim.
Rangem armários no raiar de um novo dia,
do lado de lá pulsa a vida
e dela se fazem os meus sonhos,
mas a realidade é distante
e a distância enorme, sofrida
e o tempo... o tempo escoa-se gota a gota
com uma violência atroz que nos dilacera a alma.
Nesta prisão de pedra
na solitária camarata onde me encontro
são muitos os rostos sem nome.
Nome só o teu, na formatura, na GAM, na Instrução
e penso o que não posso (nem consigo) dizer.
Revejo-te mil vezes na memória
construo na imaginação um sonho dourado,
castelo de cartas ao sabor do vento.
Olho demoradamente, com saudade, alguma raiva
e qualquer coisa mais, a tua fotografia
imagem de um sonho feito mulher
e grito, grito contra esta guerra que não é minha
grito, pela liberdade que me foi roubada
grito, pelos meus direitos violados
grito contra esta vegetação involuntária
e sinto falta do teu silêncio
do teu desprezo, da tua força
desse olhar mudo pelo qual eu vivo.
Sinto falta, muita falta
de ti.

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