quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

FRAGMENTOS

São momentos, excrementos da memória, fragmentos
pedaços de um todo imenso e frágil,
são recordações, cores, nomes, lições de moral,
o certo e o errado, passado e futuro
dum presente sempre ausente.
São os cheiros da infância
que se esfumaram nas voltas que o ponteiro dá,
vidas e vidas, pequenos seres, pequenas vidas
actores dessa eterna comédia
que é o drama da vida de todos nós.
Sou um ponto no espaço
físico-temporal universal,
sou a pedra arremessada sem destino
deambolando às avessas pelo infinito.
Outras pedras há, outras vidas, outras mortes...
alguém que morreu ou foi morto
pela indiferença, pela falta de amor, pela vida.
Os pais não o compreenderam
a mulher amada não o amou
a sociedade não o aceitou: marginal.
Desistiu. Morreu? Ou foi morto?
Ninguém viu, ninguém sabe quem era,
não importa. Ninguém, um parasita.
Eu não quero morrer, amem-me!
Odeiem-me mas não me ignorem!
Amada mãe, adorado pai, qual de vós se esqueceu
qual de vós não se lembrou de usar...
Estou aqui! Vocês decretaram a minha presença.
Porquê? Que mal vos fizeram? Quem a mim m'irá recordar?
Quem de mim se vai apaixonar?
Aceitai a culpa, aceitai o fracasso
que fez de mim o que hoje sou,
um pedaço de nada do muito que vos quero.
Amor, eu e tu num cavalo de cordel
num sonho de papel timbrado
25 linhas dum azul em dó maior,
sinfonia desta vida sem cor.
Negro destino, negra a vida
negro penar, negro penar
Morte. É branca a morte
como as asas dum cisne encantado,
bagaço em que m'embriago, EU,
amargo tédio de comigo conviver
e ter de gostar, porque tem de ser.
Fragmentos são filmes a preto e branco
sem heróis nem vilões, sem roteiro... só vazio,
insolúveis degredos da matéria,
fruto da palha que comemos,
fragmentos desta vida acordados
recordados a contra-gosto pelas mãos
dum qualquer poeta de merda.

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