sábado, 19 de dezembro de 2009

A FLOR

Somos porcos, vira-latas chafurdando no luxo (lixo)
desse castelo de areia de nobreza escassa;
gritamos perdas a quem nos quiser ouvir
pilhamos - sem querer - ganhos alheios
a quem de direito, e não há respeito.
Prometemos o céu e a lua
consporcamos tudo em que tocamos
somamos óbitos em nome duma moral fictícia
e derramamos prazer em noites proibidas de luxuria.
Cadelas com cio aquecem nossas camas vazias e tristes,
Amor: palavra vazia, sexo: só com camisa;
Se tu quisesses... se tu deixasses...
chafurdar na tua lama, afundar-me
no degredo da matéria humana,
humidade em olhos vidrados, grandes mas cegos.
Insane e abençoada loucura
que não nos deixa ver aquilo
que não queremos ver.
Que foi que fizémos?
vagueiam negros corações, a boca armada de desprezo
o metal é letal e a palavra é uma arma: mata.
Vive-se no gume de uma navalha
e não há nada que nos valha;
vampiros exigem sange
o calor aperta e o ar fede a miséria moral.
Resta ainda a virgem, cacem a virgem
e todos mais que nos afligem.
Calem o verso e o poeta
a luz minha eterna namorada, jaz
no céu que a viu nascer.
E a flor? Quem esqueceu de a pisar?
Dispersa a noite, desabrocha o dia
o beijo, o sentimento imaculado
a esperança ainda viva no olhar duma criança,
o grito de paz, a revolta, a fé que dura
enquanto houver uma flor de pé.
Não aniquilem a flor.

2 comentários:

  1. curvo-me perante tão grandiosa escrita. tens um dom...obrigada por o partilhares comigo.

    Beijinho

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  2. O prazer é meu, de poder partilhar mais do um dom que sinceramente não possuo, mas o fruto de algo que me dá tanto prazer como a escrita.

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