sábado, 5 de dezembro de 2009

EXPIAÇÃO

Hoje vens até mim, por fim.
Olhas-me com aquela ternura
tantas vezes sonhada e ansiada
mas nunca recebida.
Hoje fazes-me feliz na tristeza que me rodeia
e até parece pecado
que neste mundo implacável
entre o ódio e a inveja
de homens que matam homens
possa haver alguém que pense em amor.
Hoje queria ver o sorriso das crianças
ouvir-lhes as gargalhadas
descobrir o brilho do Sol
e a magia das estrelas.
Hoje queria fazer amor,
pertencer, ser parte de...
Se ao menos houvesse outra chance!...
Mas é tarde para mim
(para o mundo não sei)
Está a ficar tão escuro e tão frio à minha volta.
Estou preparada para partir
aconchegada na recordação deste momento.
Hoje deixei de respirar, o coração parou
não vai mais bater, não vai mais sofrer.
Amanhã serei pó, estarei no fumo branco
serei o nada, após o nada que foi
a minha fútil existência.
Agora vais-te, ouço os teus passos cada vez mais longe
enquanto eu luto contra a impotência
de poder reter-te, de poder levar-te.
Dai-me a vida, Deus todo misericordioso, dai-me a vida!
qu'eu juro nunca mais dela eu própria me apartar.
Foste-te, já não te vejo, já não te sinto
já não ouço os teus passos,
resta-me esperar deitada
pelo sopro quente que me envolverá
neste leito de pregos e madeira,
o fim do nada que fui
o princípio de tudo o que posso ser.
Amanhã já não estou cá
estarei no ar que respirares
serei a cor, serei o vento
serei tudo, serei nada
serei pó, serei... vida.

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