sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

DESDE 85 a ABRIL DE 83

"POR TRÁS DAS PALAVRAS"

ERA UMA VEZ...

Poderia começar assim, como tantos outros contos que antigamente se contavam e que tinham sempre um final feliz, em que o príncipe que tinha virado sapo por causa da inveja duma bruxa má era beijado pela heroína e viviam felizes para sempre. No Silêncio de Palavras Mudas é, todavia, uma história real, com sentimentos, desilusões e expectativas, feitas de palavras que raramente sairam do papel. Nela não vão encontrar príncipes ou bruxas, muito menos finais felizes, pela simples razão de ser uma história ainda à procura de um final. Não é apenas e só uma colecção de poemas, é um pedaço da minha história presente em pequenos apontamentos que fui tirando ao longo desta travessia do deserto e dos oásis que encontrei. Aqui falo de mim - mas não só -, falo de pessoas que se cruzam às vezes por um breve instante, e que ficam guardadas na memória, pessoas que se magoam entre si e a elas próprias à procura duma felicidade tão utópica quanto a dos fascinantes contos das nossas avós. Dizem que é difícil ser feliz. Não sei se é ou se somos nós que complicamos. Sei que sou feliz quando escrevo e às vezes isso basta-me.
Quando comecei a escrever, nos primórdios da década de 80, a poesia não tinha para mim o fascínio e a envolvência do enredo, a inteligência e o humor mordaz dos meus primeiros heróis de papel, em que eu me revia e onde realizava as minhas fantasias demagogas. Nessa altura, definia os meus sonhos e desejos como tarefas hercúleas, cabos das tormentas impossíveis de ultrapassar. Cada paixão, vivida no silêncio de palavras mudas sobrevivia de uma forma masoquista em cada conto ou poema, enquanto eu me fechava mais e mais numa concha fictícia que não só não me trazia imune à dor como ainda me deixava indefeso face à realidade.
Em 85 perdi o meu pai. Durante muito tempo senti-me sufocado pelo peso da responsabilidade, das esperanças que ele depositava em mim. Nunca me disse, mas eu pressentia-o, como algo inerente à nossa própria natureza. Por trás das palavras mudas, de todos os seus defeitos e virtudes, dos sermões sempre longos e das suas lições de vida, eu idolatrava-o, respeitava-o, compreendia-o. Infelizmente não cheguei a dizer-lhe o quanto, não "bebi" dos seus ensinamentos, não lhe disse: Podes contar comigo, eu estou aqui e gosto muito de ti!
Foram necessários quase quatro anos para que voltasse a procurar na poesia o escape a um estilo de vida completamente desfasado da minha realidade. O serviço militar endureceu-me e a poesia foi o meu grito de revolta, o elo à vida real e a forma de anular a distância física de um primeiro amor, já de si tão distante. A 15 de Maio de 1991 comecei a trabalhar. A prosa pertencia já ao passado e na poesia as primeiras palavras chegavam titubeantes, ingénuas, como uma criança aprendendo a caminhar, como eu próprio afinal, procurando ao longo destes anos todos inovar, quer ao nível da forma como do conteúdo, em busca de um novo vocabulário, mais rico, menos acessível, mais arrojado, tornando-o por isso mais vulnerável à crítica.
No Silêncio de Palavras Mudas é a minha história, a história de um sapo ainda à espera de um beijo que o transforme em príncipe, a história de uma busca incessante à procura de uma Cinderela; um apanhado quase completo de mais de 18 anos de escrita, desses filmes qu'ainda hoje faço na cabeça e invento no papel.

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